Arqueologia familiar

Hoje resolvi atacar uma caixa de plástico com inúmeras pastas contendo inúmeros documentos de família. Entre os achados o nome do Brandt num recibo de cirurgia da minha mãe. Acho que ele operou a coluna da mãe e da filha… Uns comprovantes de votação – mas sem o título de eleitor – do meu irmão. Blocos de impressos para anotações de jogos de xadrez, do mesmo referido irmão. A linguagem de cartório nos contamina…

(Coloquei tudo o que acredito não ser para guardar numa sacola de pano, para o meu irmão ver quando voltar ao Brasil. Por exemplo, os comprovantes de que pagamos minha inscrição no processo seletivo na American University, sendo que a mesma instituição não avaliou meu currículo por falta de pagamento… O resto volta para a caixa. Mas sempre a dúvida. Será que não jogamos fora as coisas mais significativas?)

Também na caixa um currículo do meu pai, que incluo anexo, feito em 1978, com suas atividades do tempo da Ajax. “Neste cargo, liderou equipe técnica de projetistas e desenhistas em número médio de 25 pessôas.” Meu pai, liderando 25 pessoas. Não é que não acredito, se está lá é porque era. Mas não era o meu pai. O gerente da Ajax – “gerente da divisão de desenvolvimento de produto da Industria e Comercio AJAX S.A. – Produtos de Aluminio para a construção civil” – foi meu pai assim meio por acaso. Meu pai mesmo, que me ensinou perspectiva, me pegava na Cultura Inglesa – os recibos também estão na caixa de plástico – e me ajudava nos trabalhos de escola ensinando a fazer sonoplastia, era um outro cara. Às vezes o reencontro, numa conversa com um amigo ou numa memória solta, como a de ontem, sobre uma conversa que tivemos já em 2002…

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Ele mesmo se reencontrou depois que largou essa coisa do alumínio e voltou a dar aulas e começou com as esculturas. O pai apressado, de terno azul, que passava os fins-de-semana lendo os jornais taciturno – o “homem do terno cinza”, na tradução para o americano – está nesse currículo anexo. Engraçado que em 78 ele tenha visto, nele mesmo, apenas esse homem, que fez a fachada do Clube da Aeronáutica, no Rio de Janeiro. Por que não está no currículo a Igreja que projetou, ainda jovem, o escritório com Sergio Bernardes, a exposição em homenagem a FLLW no IAB? É que quem fez esse currículo ainda era o homem do terno cinza.

“Estágios técnicos: 1977 – visita ao Alcoa Center – Pittsburgh – USA”. O que é que a gente guarda, e o que é que a gente joga fora? Meu próprio Pittsburgh, o que faço? Engraçado que mais tarde, a Ajax longe e falida, não sobrou nada. Meu pai mesmo nem falava destas obras, “Edif. Andrea Matarrazzo – Av. Paulista – Gomes de Almeida”. Apontava sim as esculturas dele espalhadas pelos prédios da cidade, Avenida Faria Lima, Credicard Hall, Morumbi. O home do terno cinza, que mesmo não sendo meu pai foi quem me criou, havia mesmo ficado pra trás.

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