Homenagem ao Regis Andrade

Fica como homenagem do dia dos professores atrasado, mas acho que a gente nunca deve deixar de falar das pessoas que nos marcaram. E o Regis nos marcou. Pois senão como é que me viria tão forte na memória a sala ensolarada da Água Branca onde nos reuníamos para discutir algo que ninguém ainda sabia bem o que era e como funcionava, a democracia no Brasil? E a carona, um dia, depois da reunião.

Regis dirigia normalmente, como qualquer pessoa que não tivesse medo do exército brasileiro. Então voou na Avenida Sumaré, até hoje meu pulso acelera de lembrar. Mas eu também tenho minhas coragens, e para ouvir uma boa história eu aceito tudo. Me conta então, Regis, o que você fazia para resistir ao regime? Pois desde aquela época se falava muito vagamente do que as pessoas faziam propriamente.

“Eu distribuia panfletos em porta de fábrica, imagina,” ele falou rindo de si. E era o jeito dele, peito aberto, sem calcular riscos. Aí o pegaram, e não sei se bateram muito ou pouco. A outra cena: “Me levaram para o aeroporto e antes de embarcar o sujeito disse: ‘se você voltar, você morre.'” De algum modo torto, a firmeza do coronel o salvou. Pois tirou o risco da coisa, e sem risco só há mártires, e o negócio do Regis era o risco.

Pelo que me disseram depois que ele faleceu, o Regis levou a vida assim, com os riscos, e nesse aspecto me lembra um pouco o Marcos Faerman, o Marcão, que também me marcou muito. Gente que aposta. Que ama. Gente desprendida. Que tem prazer nas coisas que faz, que come. Que não tem estratégias.

Na sala de reuniões era sereno, entretanto. Quase calado. Nos ouvia, perguntava coisas como se nós fôssemos pesquisadores, e não adolescentes. E aí nos tornamos pesquisadores, então era um espécie de mágico. Ria, tirava sarro, eu era liberal pois vinha da economia quando todos vinham da sociais. Não era santo. Mas, caramba, como nos respeitava. Descobria conosco os meandros do funcionamente dessa coisa, a democracia parlamentar, que entrava na normalidade da vida, da rotina, dos apoios, dos negócios.

Queria passar lá na Água Branca e dizer pra ele o que faço, que estudo a democracia em escala global! Olha que chique, Regis! E ele ia rir, o bigode, o cachimbo, todo ele, grande. Queria também contar para o Weffort, que anda por aí, se alguém tiver o email dele me mande. Mas queria contar para o Regis.

Voltei à sala várias vezes. Em todas fiquei como aqueles cachorros de filme, fungando para ver se não sentia o rastro do Regis pela sala, pelos cantos. E depois cruzando as patas na mesa na espera. Mas não. Essa é a grande questão das religiões: pra onde é que as pessoas vão depois que morrem? Será que o encontrei em outro lugar, outras aulas, reuniões? Acho que não, morreu.

Mas espero que tenhamos, nós todos, momentos Regis. Momentos de desprendimento e interesse, de prazer de aprender e ensinar, momentos em que aceitamos o risco de escutar o outro, de enxergar seu mundo, seja aluno ou professor, figurão ou analfabeto. Viva o Regis!

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