Imagens de Marília

Fiquei nesse fim-de-semana em Marília, para uma mostra de filmes russos que meus alunos organizaram, como parte de um curso que estou dando, Arte e Sociedade. A mostra em si foi interessante, apesar do público pequeno. Rever Encouraçado Potemkin, que como cinema pode ter sido revolucionário, mas como arte é um longo clip de propaganda. Não há pessoas, apenas massas. Depois Solaris – eu vi nos anos 80? Ou vi Stalker? Sabia que Solaris vinha do romance de Lem, mas será que vi? Amei. 2001 pode ser bom, mas Solaris é um soco na alma, realmente faz a gente se perguntar sobre quem somos. Em 2001, é a máquina que questiona o homem. Em Solaris, são os seres criados pela nossa imaginação que nos seduzem/atormentam/envergonham. E, fechando a mostra, Cidade Zero, aquele filme engraçadíssimo sobre uma cidade que vive em torno do Rock ‘n’ Roll.

Depois andei por aí, e notei duas coisas na cidade. Marília é uma cidade espalhada, vocês sabem. O transporte coletivo é muito ruim; eu tive que tomar um ônibus que só passava a cada hora, por exemplo. Um atraso. E vinha cheio, ou seja, comportaria 3 a 4 viagens por hora. Com o crescimento da renda, muitos preferem, corretamente, comprar um carro. Ainda no setor carros, há alguns rapazes, não me recordo como são chamados lá, Barretos Boys, algo assim, que tem uns carrões enormes e ouvem música péssima no volume mais alto. Enfim. A tal qualidade de vida, como dizem.

Mas o interessante é que o espalhamento da cidade não tem só a ver com os carros. Tem a ver com a geografia do cidade, marcada por sulcos, recortes naturais. Vejam se no Google Maps dá pra ter uma idéia. E a cidade dá as costas para esses sulcos, ravinas, não sei direito o nome. Perguntei a um senhor no ponto de ônibus como eles se referiam a eles. Ele disse que às vezes falam em vale, às vezes em buracão mesmo. Os alunos confirmaram. E também ouvi que há esgoto sendo lançado nos buracões, e que a prefeitura agora busca canalizar e tratar o esgoto da cidade. Vejam: a cidade é rica, segura, tem universidades, mas o esgoto é despejado nos buracões. Agora vejam as fotos que tirei de um buracão que eu tenho que atravessar caso não queira esperar o ônibus.

Não é bonito? A cidade é toda cortada por essas ravinas. Ou veredas. Se me contratassem para fazer o marketing da cidade eu sugeriria veredas, pois o termo tem um quê de romântico. Perto das encostas, em alguns lugares, há habitações sub-normais e predinhos do BNH. Quer dizer, do CDHU ou coisa que o valha. A própria universidade dá as costas para nosso buracão. Ouvi que há um plano para colocar um teleférico no buracão. Não sei se amei essa idéia. Por que não trilhas? Áreas de lazer na beirada das veredas? Calçadas mais largas, com paradas sombreadas, nas avenidas que atravessam os vales, para que se possa caminhar com tranquilidade e apreciar a vista? A calçada que usei me deu medo, é estreita, você fica entre os carros e o precipício. Enfim, assim como nós paulistanos damos as costas para o Tietê e Pinheiros e canalizamos os outros rios e córregos da cidade, os Marilienses também dão as costas para esses bonitos valem que cortam a cidade.

Mas também caminhei pela cidade, uma cidade americana em vários sentidos da palavra. Lojas bacanas, ainda que meio vazias, shoppings, loja de comida pra cachorro, sinais luminosos de fast food que servem de referência espacial – Segue até o Habib’s e lá vira à esquerda, hipermercados, e assim por diante. Só que no meio disso, uma loja inesperada. A oficina de conserto de brinquedos do Diniz, na rua Benjamin Constant, que recebe brinquedos de toda a região e até de São Paulo. Um lugar onde as enormes vitrines ainda não chegaram, ainda não descobriram tudo e revelaram que na verdade não há muito o que descobrir. Ali na oficina do Diniz, as mulheres passando e contando as novidades, perguntando as dele, parece que ainda há coisas para serem descobertas ou imaginadas.

Ah, uma nota final: o povo de Marília, isso eu já havia percebido desde meu primeiro dia lá, é muito simpático! Nesse dia de caminhadas, além do GoogleMaps do iPhone também fui perguntando para um e outro como chegava aqui e ali, o que era esse prédio, que ônibus tomava agora. Todos foram muito solícitos. Um rapaz se ofereceu para me levar na rodoviária, sem mais nem menos. Duas moças me deram todas as dicas para pegar o ônibus intermunicipal. Nos dias em que estava com pressa peguei carona com o pessoal do condomínio.

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2 respostas em “Imagens de Marília

  1. Solaris é muito bom. O livro é o melhor do Lem. O filme, quem compara com 2001 ou não entendeu absolutamente nada (“resposta soviética a 2001”) ou entendeu ambos muito bem (até onde pode chegar a consciência sobre o universo?).

    São ravinas ou veredas, não parecem vales pela foto. Nem voçorocas. Precisa perguntar para um geólogo. Geologia da Unesp é em Rio Claro. Será que estudam Marília?

  2. Eu entendi ambos medianamente. Vi a luta de homens isolados com coisas que eles não compreendiam, que eram parte íntima deles e também alienígenas. Nesse sentido gostei mais de Solaris, pois a luta era enlouquecedora, enquanto que a luta com Hal era algo mais mecânico, mas mocinho e bandido.

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