A bronca do meu pai

Faz 9 anos que meu pai faleceu. Fez 9 anos exatos no começo da semana, mas como já disse essa data não é das que ficou marcada. Só sei que meu pai morreu 3 semanas antes de eu defender meu doutorado, e agradeço à Chevra Kadisha por me lembrar do dia certo todo ano.

E hoje, esperando o ônibus aqui em Marília, indo para uma mostra de filmes russos que meus anos organizaram, num fim de tarde bonito e ensolarado, pensei no meu pai.

Pensei precisamente num dia em que estávamos eu, ele e meu irmão conversando, e eu disse, ingênua, como quem resgata uma lembrança inócua: “E lembra quando você nos pôs de castigo, o Felipe lá pra cima e eu aqui em abaixo?”

Meu irmão lembrava. Foi a única vez em que meu pai nos pôs de castigo, a única vez também em que não propriamente levantou a voz, mas falou alto, claro, e bravo. Meu irmão também lembrava como eu. Um dia em que fizemos algo tão inconveniente que merecemos uma bronca, a única bronca. Uma coisa insólita, bronca do pai.

Meu pai também lembrava, o que já nos espantou um pouco, uma coisa tão boba. Mas de um outro jeito que nós. “Ah, filha, nem me lembra.” Por que? “Ah, eu tenho vergonha.” Mas por quê, perguntamos sem atinar com a coisa. “E falar daquele jeito com os filhos? E que coisa idiota, um pra cima e outro pra baixo? Eu não sabia o que falar e disse aquilo.”

Esse era o meu pai. A bronca para nós era merecida, ficamos nós com vergonha de ter provocado. Mas para ele era uma espécie de engano. “E falar daquele jeito com os filhos?”

Meu irmão repetiu a dose uma vez. Minha sobrinha mais velha, muito pequenininha, levantou um livro e ia dar com o livro na cabeça da caçula. Meu irmão viu e gritou de longe: “Não!” A menina voltou o livro para cima, e nisso se desequilibrou, caiu de bunda no chão e caiu no choro. Pelo grito do pai, pela queda, por ter se confrontado tão cedo, naqueles segundos de hesitação – dou a livrada ou não dou a livrada? – com as coisas que a gente não pode fazer.

Como é que elas lembrarão essa história? Eu lembro da mais velha sentada no chão, e da mais nova olhando a cena pasma, o que foi exatamente que me salvou?

Eu tive com elas também meu momento. Um tiquinho mais velhas, novamente a mais velha ia sentar a mão na mais nova. Eu gritei: “Rosa, pensa com a cabeça!” Sem acreditar no que via, na briga se desfazendo, nessa estranha autoridade que as crianças nos conferem, nos confundindo, emendei, para meu próprio conforto: “…não pensa com a bunda!”.

As duas desataram a rir. Juntas. Eu sorria. A briga parou em todos os sentidos. A briga, digamos, evaporou. Pois a bronca que meu pai não queria ter dado eu também não dei. Foi mais, assim, uma piada ética.

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