Globalização, história e o colegial paulista

Estou escrevendo baseada no que catei na internet, http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,alckmin-e-contra-reduzir-numero-de-aulas-de-portugues,779031,0.htm, sobre as reformas propostas pelo governo do Estado. Abaixo algumas idéias, a partir da minha experiência como aluna e professora das ciências humanas. Não vejo distinção muito grande entre uma formação para o vestibular e para quem vai encarar o mercado depois do colegial. As prioridades são as mesmas: um português rico e flexível, conhecimento amplo de história, experimentação artística e língua estrangeira que abra portas para o mundo.

3 áreas

No Brasil, a gente tradicionalmente divide as áreas em exatas, humanas e biológicas. Sem entrar no mérito da divisão, ela faz sentido para a comunidade acadêmica, dá certo nos colégios particulares, então pra que mudar? A proposta do governo tem: linguagem; matemática e ciências da natureza; ou ciências humanas. Linguagem me parece parte das ciências humanas, e as exatas e as biológicas podem encaminhar os jovens para atividades distintas. Outra questão: o aluno teria que escolher na 8ª série? É muito cedo. Caso fossem aulas optativas que abrissem o leque de opções, que ele pudesse experimentar e no último ano se decidir, seria ótimo, mas impor uma opção profissional importante muito cedo não é bom. A única vantagem é que é mais fácil de “montar a grade”, se é que isso é vantagem.

História

O que eu mais sinto falta, tanto na minha formação básica quanto na dos meus alunos de graduação, é de uma boa formação histórica. Sinto falta mesmo, estou sempre lendo coisas e me perguntando: “como é que não me deram isso na escola?” Quanto aos alunos, sinto que tudo o que eu dou de história é novidade para eles, eles são receptivos, e acredito que sejam as coisas que mais ficam. Como era Berlim na virada do século? Qual a origem da escrita? E assim por diante.

Além disso, a história “aumentou”. Aumentou o conhecimento que temos da história e a necessidade que temos dela. Seja para compreender as diversas contribuições culturais da sociedade brasileira, seja para compreender o mundo global, temos que começar a estudar seriamente: a América pré-Colombiana, a história da China e da Índia, a história da África, a história do Oriente Médio e do Mediterrâneo, a história das Américas. É muita história, e cada qual de muita importância. Esse parágrafo está curtinho, mas eu poderia escrever páginas sobre cada aspecto da história, e sobre a importância destes para a nossa formação.

Sociologia sistematiza, organiza. É uma ótima disciplina, melhor quando a gente já tem um corpo de informações mais pesado. Seria bom no colegial se a ênfase fosse na sociologia do cotidiano, para os jovens aprenderem como pensar no mundo imediato a sua volta, mas não é a nossa tradição. Filosofia também, seria bom se fosse um questionamento sobre a vida, mas a nossa tradição é de história da filosofia; difícil dar algo tão abstrato e acadêmico para jovens que tem questões urgentes. Graduados em filosofia e sociologia podem ser ótimos professores de história, trazendo suas questões teóricas para as aulas, claro. Um bom professor pode vir de várias áreas, não tenho dúvida alguma. Mas a necessidade dos jovens na área de humanas, para mim, é de história. O que poderia ser interessante é oferecer algumas disciplinas de ciências sociais, onde, dependendo da ênfase da escola ou do professor, se desse antropologia, sociologia, economia, ciência política ou filosofia.

Literatura e Artes 

Outra área de humanas que precisa de mais ênfase é a literatura. Ela pode – e deve – estar integrada a com a história. Ler Gilgamesh, ler Homero, mergulhar nessas grandes narrativas humanas, eu acho fundamental. Literatura abre portas, abre mundos. Hoje, com edições resumidas, com documentários, encenações em vídeo, quadrinhos, você pode se aproximar dessas grandes obras por vários modos, não precisa ser algo solene, chato, “erudito”.

Ligado à literatura (não sei se na proposta é isso o que “linguagem” quer dizer) precisamos ter uma ênfase nas artes. Precisamos transmitir aos jovens nosso patrimônio cultural, tanto erudito como popular. Em qualquer lugar isso é importante, no Brasil é mais, por sua rica tradição narrativa e musical, especialmente. Nossa identidade comum passa por essa cultura, e até nossa política, nos anos difíceis, precisa dela para resistir e se reconstruir. Das biológicas e exatas não vou falar nada, acho que meu irmão escreveu sobre isso, só digo que as acho importantes mesmo para quem vai fazer humanas. Para não criar essas divisões artificiais que o ensino superior cria. “Sou ‘de sociais'”, “Sou ‘da São Francisco'”, como se essas identidades corporativas significassem muito.

Português

Escrevi sobre isso no blog (https://helopait.wordpress.com/2011/05/30/sem-saber-que-voce-me-ama), apenas retomo a idéia principal: português é parte de tudo o que fazemos. Português deve ser a prioridade de qualquer formação. Não essa bobagem de “escrever certo” ou mesmo de “escrever errado”, um falso dilema. Mas sim escrever. Incentivar o jornal de escola, incentivar a escrita criativa, incentivar a pesquisa (fazer entrevistas, pesquisar em jornais), incentivar o debate, a produção artística (peças teatrais, documentários). Comunicar-se. Em aula, em atividades extra-curriculares, em resolução de conflitos, explorar todos os aspectos da língua, toda a potencialidade da língua como veículo de reflexão individual, expressão artística, compreensão da sociedade ao redor, e assim por diante. Nesse sentido, o português deve estar obrigatoriamente integrado aos outros cursos de humanas e talvez até aos de exatas e biológicas, caso esses também tenham componente de pesquisa, de exposição do conhecimento.

Línguas

Hoje o inglês é a língua franca. Isso é fato. O benefício de estudar uma língua franca é enorme: viagens, contatos culturais, negócios, ONGs, a lista é ampla. Espanhol é uma língua falada por muita gente, mas nenhum brasileiro vai deixar de ir a um país por não saber espanhol, ou deixar de conversar com um estrangeiro por não saber espanhol, dada a proximidade do português com o espanhol. Caso haja o interesse de estreitar os laços com nossos vizinhos, seria mais interessante investir em centros culturais brasileiros nos países vizinhos, a exemplo do que fazem a Aliança Francesa e a Cultura Inglesa. São Paulo poderia fazer isso, por que não? Como o Instituto Confúcio e o Instituto Cervantes. Para nossos jovens, o melhor é um inglês bem dado, o que hoje não é feito.

Claro que o inglês é apenas o básico. Se uma escola tem recursos e alunos interessados, ela pode oferecer mandarim, outra escola pode oferecer francês, ou alemão, o próprio espanhol, italiano, e assim por diante. E aí alunos de escolas da redondeza que tivessem interesse numa língua específica poderiam se juntar, formando turmas maiores. Acredito que os institutos de línguas citados acima poderiam até colaborar, com treinamento de professores, material didático, até professores. Instituto Goethe. Casa de Cultura Judaica. Além desses, as colônias de imigrantes, com suas organizações, também poderiam colaborar: os japoneses, os árabes, tenho certeza que com um plano inteligente o governo do Estado poderia aproveitar essa energia que sempre esteve presente em São Paulo, inclusive nas escolas. E realmente abrir portas para esses jovens paulistas que sabem que têm direito a mais do que o verbo to be.

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Uma resposta em “Globalização, história e o colegial paulista

  1. Português, sociologia, e filosofia têm uma coisa em comum: são vistos como “saberes teóricos”, apropriados para provinhas e para reprodução de conhecimentos. Matérias relativamente fáceis de burocratizar. Por isso são do gosto oficial. Matemática também.

    Literatura tende para um saber do mundo real. Língua portuguesa faz parte, é um suporte, mas não é a finalidade. Mesmo literatura é ensinada como matéria que cai na prova, classificação, períodos, como se fosse uma ciência normativa. Coisa de bacharel. Melhor mesmo é ensinar história e ciência, e abrir a literatura, para ela deixar de ser um apêndice da língua oficial.

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