“N”, de Nabucodonosor

Quando cheguei, o primeiro conferencista já havia falado. Escutei atenta o segundo, um pouco mais velho que eu. Era sobre Sérgio Buarque de Holanda. Depois vieram as perguntas, e o outro senhor, do lado esquerdo, respondeu. Notei sua fala, suas expressões, e pensei: “É da geração do meu pai.”

Aí ele foi falando, com o entusiasmo daquela geração. Disse que a USP não tinha um plano diretor, e que isso era um absurdo. Que a universidade tinha que ser um laboratório, servir de exemplo para a sociedade, e não congregar o resto do que ela produz, decidido sem critérios, de modo burocrático.

Então me pareceu mais que ser da geração do meu pai. Me pareceu ser da turma de meu pai. Mas com aquela energia? Parecendo tão jovem? Aí apareceram os nomes, Artigas, o próprio Sérgio Buarque, a FAU. O início da Cidade Universitária. Referir-se ao Fernando Henrique como colega.

Olhei no programa da conferência. Estava lá: “Nestor”. Nestor, nestor… Quem era? Olhei melhor e vi, em tinta esmaecida, logo abaixo: com “n”, de Nabucodonosor.

Então esse era o Nestor! Dele eu só sabia isso, que se apresentava assim, Nestor. O quê? Nestor, com “n” de Nabucodonosor. Quando leio sobre tempos antigos, e aparece essa figura histórica, penso no amigo do meu pai.

Das amigas da minha mãe eu sabia tanto, até mais do que queria saber. Sabia das intimidades, das crises de pânico, dos casamentos por conveniência. Conhecia a história delas e até dos maridos. Queria ter sabido menos.

Dos amigos do meu pai, o contrário. Sabia fragmentos, restos de história. Detalhes cômicos, como histórias de soldados, coisas que não comprometem nem revelam. O Carvalho fazia “pratical jokes”, mandava os conhecidos trocarem o ar dos pneus. “Mas precisa?” Ah, claro, a cada 2 mil quilômetros se troca o ar dos pneus.

Conheci o Carvalho, perguntei: “Por que meu pai demorou 10 anos para se formar?” Insisti, insisti, queria saber. “Ah, sei lá, eu nunca me formei.” Só arranquei isso, mais nada. E agora? Será que era o Nestor mesmo? E quem era o Nestor? Eu não sabia nada.

Um dia meu pai chegou em casa e disse que tinha ido almoçar com o Tuí. “Mas como é que você não me chama?” “Ah, filha, você ia ter querido ir? Eu não sabia.” Incrível isso, como é que não sabia? Nem desconfiava? Mas a vida é assim, as coisas mais importantes a gente não tem a menor idéia. E esse afã de estudar, de saber tudo, vai enganando a gente, e só de vez em quando nos damos conta de que sabemos tudo sobre o que não importa.

Eu ia falar com o Nestor depois da palestra. Como é que ele veria o meu pai? Com condescendência, ah, o Henrique “polêmico”? Com aquela admiração idealizada? Mas escritor é assim, arrisca tudo para não perder a história. Eu ia falar com o Nestor.

Uma estudante jovem perguntava algo sobre casas populares. Nestor deu uma aula. Eu ouvi sem pressa, me senti em casa. Queria falar, mas também queria ouvir. Os pobres pensam em tudo, quando compram o material, quando saem da casa alugada, como constróem. É uma vida dura que exige cálculos. Eu ouvia.

Ele olhava para mim como se já me conhecesse. Professor e aluno. Laços.

Nestor, me tira uma dúvida: eu sou a filha do Henrique Pait. Ele fez um ah, e virou a cabeça para trás, exatamente como meu pai. É o que eu disse: a mesma turma, os mesmos jeitos. Nem condescendente nem idealizador.

“Seu pai, o seu pai era muito. O seu pai reformulou a prova de desenho da FAU. O seu pai, olha, o seu pai não deixou uma obra tão grande porque ele pensava em muitas coisas ao mesmo tempo. O Pait inspirava a gente, a cultura, as idéias.”

E continuou falando do meu pai. Perguntou sobre mim, mas não consegui falar. Falou uma professora ao meu lado, dizendo, com algum peso, que também era filha de alguém, e mencionou um desses nomes que abrem conferências. Agradeceu a participação do palestrante. Eu ainda estava sem voz. Olhei para ela e pensei num instante: você não está entendendo de quem estamos falando. Me senti rica, de estirpe.

Depois falei de mim, o Nestor perguntou de minhas tias, com quem eu me pareço. Pensei nas minhas tias jovens, a casa na rua Major Sertório onde eles iam almoçar e estudar se construiu na minha frente, porque não são só os arquitetos que constróem. As memórias, os textos também.

Falei da minha mãe, e ele me surpreendeu: “Ah, sua mãe era muito bonita! Quando o Pait a conheceu, ele ficou gamado, era muito bonita!”

Sim, minha mãe era bonita. Mas era também tão forte, e tão inteligente, que a beleza não se sobressaia muito, ao menos para mim. E depois, sempre esculachada. Mas não era a minha mãe de quem ele falava. Era da namorada do Pait.

Então era como se visse a história do lado avesso, de um lado que eu não tinha visto antes. A mesma história. “E por que ele não foi para a FAU? Nunca entendi.” Sim, nunca entendi também. Agora entendo menos ainda. Mas há lugares que a gente ocupa assim, sem estar lá.

 

 

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Uma resposta em ““N”, de Nabucodonosor

  1. O Nestor é muito bacana. Está sempre na Usp, e escrevendo livros. E já que você mencionou, o Fernando Henrique não é mais aquele jovem candidato a senador mas está muito bem. Voz firme, raciocínio claro, e pensamento curioso, dá gosto de ver.

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