Fronteiras da Globalização: subjetividades fraturadas ou novas liberdades?

(texto apresentado no II Seminário sobre Povos Tradicionais, Fronteiras e Geopolítica na América Latina: uma proposta para a Amazônia em Manaus, Universidade Federal do Amazonas, 21 a 23 de março de 2011, mesa Redonda: Globalização, Estados nacionais e povos em situação de fronteira)

Já coloquei esse texto no blog, mas fiz algumas revisões e estou repostado…

Resumo:

Esse artigo traz uma reflexão a respeito dos desafios individuais colocados pela grande mobilidade humana facilitada pelo barateamento do transporte e pela facilidade de comunicação global. A construção de identidades vai hoje além de um atributo minoritário adicionado a uma forte identidade nacional; ela exige do indivíduo uma enorme capacidade simbólica e emocional, para que navegue com alguma estabilidade e direção nesse mar cultural, econômico e social global. Para fazer essa reflexão, procuro analisar as múltiplas relações entre cidade, nação, indivíduo e meios de comunicação, dando ênfase à experiência pessoal de viver perpassado por fronteiras de língua, cidadania e identidade. No final, faço um apanhado dos temas discutidos durante a apresentação e da experiência do seminário.

 

Fronteiras da Globalização

Cheguei em casa, no apartamento na Vila Madalena, em São Paulo, onde moro desde 1975, e não me senti em casa. Em Boston e Nova York, tinha ficado mais de um mês, com a família. Na casa do meu irmão se fala português, mas na casa dos parentes de minha cunhada, apenas inglês. Não importa, me senti em casa, falei de coisas pessoais, fofoquei, ri, dei palpite. Em casa. Fomos a um restaurante chinês, no Chelsea, todos juntos, os 11, a mesa giratória cheia de pratos. Me emocionei, fiz discurso. “OK, tia Lô, agora passa essa verdura”, disse a sobrinha pré-adolescente. Mas no fundo estavam todos contentes de estar junto, ali, comendo no chinês.

Meu irmão e minha cunhada foram morar nos Estados Unidos há dez anos. A irmã dela aceitou empregos em Londres e Singapura, e finalmente voltou a Nova York. Nas férias de agosto tinham vindo todos para o Brasil. Eu não a via há tempos, mas não parecia. Andamos pela Vila Madalena rindo e falando alto, até brigamos com uma vendedora, coisas de amigo íntimo. E agora eu é que ia lá ver todos. O primo da minha cunhada já era meu amigão desde a época em que eu vivia em Nova York, fomos numa leitura de poesias num lugar insólito, como nos velhos tempos. Então quando cheguei em casa e fiquei com saudades daquela overdose de afeto que tive no exterior.

Exterior? Casa? Parece tudo trocado.

Mas não vou falar de mim. Até gostaria, mas só estou usando esse exemplo para falar de uma situação que parece mais comum a cada dia, aquela onde o indivíduo parece estar não dentro da cidade e esta da nação, mas sim perpassado pelas fronteiras de língua, cidadania e cultura. Para falar disso, vou analisar as várias relações entre indivíduo, nação, cidade e meios de comunicação, na era moderna e na era contemporânea. Em muitas provas de concurso para docente em sociologia, cai um tópico intitulado “indivíduo e sociedade”, como se ele captasse a tensão central moderna. Mas se pararmos para pensar, essa tensão envolve mais que dois elementos. A cidade, lugar do cidadão, da cidadania, acolhe a pessoa em sua luta contra o poder esmagador da nação. Ao invés de indivíduo e sociedade, poderíamos começar a ver o grande dilema moderno como sendo um conflito entre nação e cidade.

Ou não é assim? Quem é a primeira vítima do nacionalismo, esse patriotismo ensandecido? A cidade. Os regimes totalitários sempre detestaram suas metrópoles cosmopolitas, como Berlin, com seus cabarés e sua arte degenerada, ou como São Petersburgo, cidade voltada à cultura européia. Em muito menor escala, nosso Vargas alijou São Paulo do poder, mas ao mesmo tempo usou a cidade como plataforma de um projeto econômico nacional. Já Nova York é vista por muitos americanos, inclusive os da própria cidade, como uma ilha apenas acoplada ao país. Se você sai um pouco de Buenos Aires, escuta falarem do portenho como um sujeito estranho. E os israelenses usam a expressão “Estado de Tel Aviv” para se referirem à indiferença de seus habitantes com os dramas nacionais do momento.

Apesar da suspeita, a nação não pode destruir a cidade, e apenas regimes pra lá de ensandecidos o fizeram, como o Khmer Vermelho com a capital do Camboja. O caso de São Paulo é emblemático. Com a implementação dos planos econômicos nacionalistas ao longo do século XX, dos investimentos estatais e do protecionismo comercial, quem é que se beneficia? A cosmopolita São Paulo, com seu operariado diverso e irrequieto, seus empresários audaciosos e de fala estranha, distinta em tudo da ideologia varguista das “três raças”. Pois, como sustentam Paul Krugman e o mexicano Raul Livas Elizondo no artigo que escreveram sobre metrópoles de países em desenvolvimento (Krugman e Elizondo, 1995), um país fechado sobre si mesmo economicamente acaba favorecendo o surgimento de centros urbanos e comerciais – megalópoles – ao redor do qual toda a economia nacional se volta. Cidades de projeção regional, como Manaus, perdem espaço diante da brutal centralização econômica, apenas em décadas recentes minorada. Se a nação vê a metrópole com suspeita, a metrópole vê a nação com certa condescendência. Mas uma depende da outra. Pois como é que haveria uma São Paulo sem um Estado que lhe dissesse: “toma esse mercado que é teu!”? Como é que os advogados de Nova York cobrariam honorários de centenas de dólares a hora, se não contassem com a Constituição Americana, defendida pela federação? Já houve cidades sem estados fortes, mas no passado (Braudel, 1995).

A nação tem então que tolerar a cidade. Suas minorias, seus estrangeiros, suas maluquices nas artes e no comportamento. Imaginem se desfilassem em 7 de setembro, ao lado de militares fardados, a fauna urbana da Rua Augusta, da parada gay, da feirinha da Benedito Calixto, os moradores do Crusp, os operários bolivianos e os chefs nordestinos? A nação que não nos tolera acaba desabando sobre si mesma, pois é a partir desta diversidade, às vezes harmônica e às vezes conflituosa, que a cidade transforma, cria, produz, compete, vence. A cidade pode não ter valores nacionais. Ela pode ser estrangeira, entreguista, indiferente, o que for. “São Paulo”, me disse um rapaz no Centro Cultural Vergueiro, “São Paulo quer ser americana.” Pois bem. Mas sem essa fauna não há São Paulo Fashion Week, e sem isso talvez as artesãs de capim dourado não consigam penetração no mercado internacional. E daí então essa simbiose.

Tanto a cidade como a nação moderna só podem existir com os meios de comunicação. As cidades da virada do século XIX para o XX tinham o relógio, o telefone, o correio, os sinais de trânsito, todos articulando compromissos, ações, mobilidade, manifestações. Meios de comunicação sofisticados na verdade precedem a alta tecnologia: Londres chegou a ter 7 entregas diárias de correspondência, mostrando que a cidade moderna precisa estar em permanente contato consigo mesma. É também o longo alcance dos meios de comunicação – e transporte – modernos que garante, por outro lado, a formação do mercado nacional e o respeito às leis no território nacional. Onde os transportes não são tão bons, como na Colômbia, por exemplo, o Estado se impõe com mais violência e menos efetividade. Aliás, está aí um caso onde as insuficiências do Estado nacional impõem um custo à cidade. Bogotá é um bonita cidade no pé de uma serra impressionante, mas na era das grandes migrações transatlânticas a capital colombiana ficou fora do mapa mundi dos famintos imigrantes que buscavam um lugar na América.

Bem antes da globalização, é a cidade que conecta as nações (Taylor, 2003). Por isso ela é a “estrangeira” dentro de cada país, a morada dos que resistem aos apelos nacionalistas, dos que fogem do alistamento militar. As acusações são perversas, mas têm seu fundo de verdade. A cidade olha para fora, busca o que não está lá, acolhe os estrangeiros e apátridas e manda seus filhos em expedições ao exterior: repórteres, estudantes, artistas. O papel das cidades na globalização é agora estudado por muitos, mas todos concordam que o objeto de estudo em si é antigo. Recentemente encontrei uma professora de Boston, bem de esquerda, que me falava dos problemas políticos americanos. Eu, que havia estado um ano em Pittsburgh, respondi: “Você precisa conhecer mais os Estados Unidos, Margaret”. A perspectiva dela era a do mundo global, das grandes cidades e universidades que mantém uma ideologia e um estilo de vida próprios, mas quem elege os congressistas é o país como um todo. Será que os Estados Unidos “de verdade” estão nas cidades de porte médio, no interior do país?

Pois se a globalização fez a sociologia se debruçar novamente sobre a cidade – esse lugar mágico de encontro, de entrega, de luta, de conquista – talvez ela tenha feito algo mais que isso. Talvez a globalização tenha feito de todos nós citadinos. Não sei exatamente citadinos de onde, mas citadinos de qualquer modo, cidadãos. Penso em cidadania a partir do conceito de individualidade proposto por Georg Simmel (Simmel, 1983), o sociólogo berlinense. O indivíduo constrói sua personalidade a partir da liberdade de se relacionar – ou não – com o outro. O indivíduo moderno tem e exerce o direito de se associar aos grupos que quiser, e a partir de suas várias escolhas constrói uma identidade única. O cidadão, por sua vez, tem seus direitos garantidos na medida em que pode se filiar ou se dissociar livremente. Tarsila do Amaral é uma pintora brasileira exatamente na medida em que não o é, Volpi idem. Intrigante o caso da brilhante pintora Anita Malfatti, que teve a carreira interrompida por não conseguir intermediar entre suas culturas.

Onde é a cidade, nesse sentido de Simmel? Onde é que somos estrangeiros e tolerados, ocupantes privilegiados de um espaço que não é nosso? Nos espaços públicos modernos: a biblioteca municipal, o parque, as praças de esporte, o cinema, a rua, o museu. Já na cidade contemporânea estamos no carro, na frente da televisão, no shopping center. Falam às vezes de anti-cidade, como se o shopping matasse a rua… Mas o fato é que a rua sobrevive, e também o cinema, o museu, o parque e a biblioteca. Mesmo no shopping, dizem, existe o encontro, a busca do outro. Sobrevivem pois qual o sentido da vida sem o encontro, o inesperado, o livreiro te indicando um autor, o feirante do bairro separando suas frutas?

Hoje esses espaços são também eles atravessados pelos meios de comunicação, o cartaz eletrônico, os emails do produtor rural com as ofertas da semana, os avisos de chegada dos ônibus, as televisões portáteis, os filmes vistos no computador, as buscas de endereços feitas no celular (McQuire, 2008). Como se precisássemos nos conectar o tempo todo, assim como o citadino da virada do século que portava um relógio de bolso, essa primeira miniaturização dos compromissos com o outro. Carregamos hoje num celular todos os nossos laços, compromissos, memórias, promessas. Que agora vão além dos compatriotas, concidadãos. Ou, talvez, os nossos concidadãos estejam espalhados além dos muros das cidades…

São elos que temos com gente de fora. Como quando Tarsila, Anita e Oswald foram à Europa, mas hoje vamos todo dia a Boston, a Tokyo, a Londres, onde estão nossos afetos, nossos medos, nossas saudades, nossos desejos. Vimos com o tsunami no Japão cenas tocantes de famílias separadas, famílias que não apenas se separaram por um ou dois anos, mas que cresceram separadas. Isso vai muito além da imigração, quando cortávamos os laços com a terra original. Os armênios no Brasil, por exemplo, têm danças folclóricas em desuso na Armênia, os alemães no Brasil comem pratos pesados que não se comem na Alemanha – ao menos não em Berlin! E os italianos usam expressões também já em desuso na terra natal. As cenas das famílias japonesas também vão muito além da experiência da diáspora, quando comunidades se consolidam em um país mas mantém um sistema de intercâmbio com as comunidades originais – ou com outras comunidades diaspóricas, como os judeus, os roma (antes chamados de ciganos) ou os descendentes de africanos nos Estados Unidos, que buscam de tempos em tempos elos com a África, o Brasil, o Caribe.

Agora, parece que algo se transformou nesse imbricamento, já antigo, de nação, pessoa, cidade e comunicação. Outro dia alguém me perguntou se meu irmão estava no Brasil. Eu estava escrevendo um artigo com ele nas semanas anteriores, e falava com ele por skype uma ou duas vezes por dia. Tive que pensar. Depois disse: “Não, ele está em Boston.” Mas a sensação era de que ele estava perto, cotidianamente perto. Somos privilegiados, pois retomamos a proximidade física com freqüência, e temos todos esses equipamentos entre uma viagem e outra, para manter contato. Mais sofrida a vida dos trabalhadores brasileiros em Boston, que, mesmo tendo dinheiro, não vêm ao Brasil por receio de não poder “voltar” aos Estados Unidos. Pois neste país está seu trabalho, sua casa, seus amigos, seu cotidiano e suas contas para pagar. Então é lá que são cidadãos, é a Boston que pertencem, apesar de não terem a cidadania. É comum dizerem: “Aqui sou respeitado. Os bancos confiam em mim, e posso ampliar meu negócio.” “Aqui”, me disse um imigrante haitiano, “quem faz coisa errada vai preso e quem não faz, não vai.” Que maior sensação de cidadania que essa?

Os meios de comunicação não fazem tábula rasa dos espaços, das fronteiras, das línguas, dos mundos tão distintos nos quais vivemos. Não fazem, não. Nos anos 90 uma série de autores “viajaram” um pouco, falando do cyborg, da mente coletiva, mas isso ficou para trás. Somos ainda gente, em carne e osso, com dor nas costas e mau humor se não dormimos direito, longe dos cyborgs, apenas gente comum com penduricalhos eletrônicos. Colaboramos em wikis de todos os tipos, assim como nossos antepassados construíram pirâmides, faziam a colheita ou montavam automóveis. É da condição humana que realizemos atividades juntos, mas isso não altera a nossa natureza, as nossas paixões muito pessoais. E os meios também não tiram a razão de ser da cidade. Não estamos numa multidão quando entramos no Facebook, estamos apenas no Facebook. A cidade ainda é privilegiada, pois é na cidade que em primeiro lugar aparecem os novos dispositivos de comunicação e é nela que as novas formas de sociabilidade ganham visibilidade, mesmo as vindas de lugares menos conectados. Estar na cidade ainda é estar no mundo que o homem cria naquele momento, um mundo cada vez mais global.

Mesmo para acessar a internet é preciso estar em um lugar, um centro cultural, uma casa conectada, ter um celular que alcance um torre de transmissão. A internet não paira no ar, como os autores dos anos 90 indicavam. Ela é marcada por lugares, espaços, fronteiras, Estados. Sim, Estados que a protegem, a atacam, a policiam, a perscrutam, a investigam, a temem, a financiam. Existem fronteiras, mesmo sutis. Num site de imagens, como o Flickr, alguns jovens vão ficar em seus pequenos mundos, mostrando fotos e produções para amigos e conhecidos. Outros vão além, usando o espaço para conhecer – e divulgar – novas culturas e práticas artísticas. Alguns jovens vão criar na internet espaços de discussão, outros apenas reproduzir o que receberam – isso porque os novos meios de comunicação repõem o indivíduo em um lugar privilegiado. No passado, os estudiosos dos meios de comunicação perceberam que mesmo os receptores dos meios de comunicação “de massa” pensavam, filtravam, interpretavam. Agora eles mesmos dizem o que pensam, o que filtram, o que interpretam, através dos próprios meios atuais.

E é esse indivíduo, com mais capacidade de atuar no espaço comunicativo global, que ao mesmo tempo enfrenta os dilemas mais difíceis. Vou? Fico? Levo? Trago? É costume entre moradores de Nova York, por exemplo, quando chega a hora de deixar a cidade, ainda sublocar o apartamento por um ou dois anos. Aí finalmente a realidade se impõe e você percebe que não vai mais morar lá, e abre mão daquele passaporte novaiorquino, um contrato de aluguel na cidade. O cidadão sempre foi dividido, sempre foi, como diz Simmel, um estrangeiro, que chega e fica. Mas ele ficava em um lugar e, mesmo sendo estrangeiro, era estrangeiro de um lugar. Hoje ele é estrangeiro em vários lugares, tem a família em dois países, compromissos em três. Cresceu falando várias línguas, cada qual com suas sociabilidades, regras, culturas. Tudo na mesma pessoa. Cyborg? Não. Apenas um ser humano, numa condição já antiga, errante, mas atual, sentida.

Se a metrópole ainda tem ascendência sobre a pequena cidade em sua capacidade de conectar a nação com o mundo, através das empresas, bancos, universidades, comunidades diaspóricas e outros grupos e instituições, a verdade é que a natureza da relação entre cidade grande e cidade pequena mudou. Quebrei a cara quando, num curso sobre globalização, pedi aos alunos que fossem a São Paulo observar o cotidiano da cidade. Um aluno resolveu ir até o sítio do avô, onde encontrou máquinas, animais, adubos e fertilizantes produzidos ou criados ao redor do planeta, e postou no nosso site o relato irônico: “atravesso o caminho ladeado de tratores Massey Ferguson, e aí sim sinto o delicioso aroma do esterco global, produzido por galinhas européias …” Sítio do avô, expressão que evoca o bucólico e o primitivo, com mais marcas globais que a rua Oscar Freire e seus Prada e Diesel.

Então essa fratura do indivíduo – não digo fratura em qualquer sentido pejorativo, esse quiasma, essa nossa condição dividida – talvez não se encontre apenas no habitante da metrópole contemporânea. Nos eixos os mais inesperados – Governador Valadares-Framingham, Guatemala-Massachusetts – encontramos esse sujeito dividido, que busca sua cidadania no plano legal e também no plano do pertencimento. Os maias não querem, por exemplo, se identificar com os latinos nos Estados Unidos, uma vez que por razões históricas e culturais se sentem mais à vontade com a identidade indígena… Mas ser cidadão, me parece, é mais que tudo pertencer à cidade. Novamente, digo que sem a constituição nacional, o presidente jurando defendê-la e o exército apoiando o presidente, essa conversa toda é balela. Sem o Estado, o que seremos? Como produziremos?

Agora, pertencer, pertencer, o cidadão pertence à cidade… Pertence no sentido de que é lá que ele se encontra com o outro e se reconhece distinto e semelhante ao mesmo tempo. É lá que ele se pergunta: e se eu fosse de outro jeito? Ser maia talvez seja um jeito de dizer: “Sou eu. Não sou você, também não sou ele, sou eu. E moro aqui.” Os maias de New Bedford se identificam como “Native Americans”, americanos nativos. Só que são nativos de outro país. Ou será que ser esse nativo quer dizer, simplesmente, ser daqui? Assim os palestinos de Jerusalém também correm aos escritórios do governo para obter a cidadania israelense (automaticamente eles têm apenas um documento de residente permanente). Não é que amem o Estado de Israel, mas temem que se um acordo for selado entre Israel e Palestina, eles possam perder o que têm. O que têm é parte deles, parte já de sua história, do que são. Então discretamente preenchem as requisições, numa afirmação de que não são você, nem eles, são eu. Sou “de Jerusalém” e daqui ninguém me tira.

A cidade permite que o cidadão seja alguém. E no caso de minorias assim, muito minoritárias, como sua voz coletiva pode ser ouvida? Os gays no Oriente Médio, por exemplo, que chance têm em culturas tão repressoras quanto ao comportamento? Mas juntos podem se articular, ao menos noticiar os abusos mais flagrantes, gritar numa arena global. Não é na comunidade que terão seu espaço. E nem na cidade grande. É num espaço virtual onde as vozes reverberam, talvez voltando a suas comunidades, cidades, sociabilidades e sexualidades quem sabe mais livres. Que chance a causa da defesa dos direitos dos animais têm nos campi brasileiros, quando a maioria dos jovens acha o tema tão marginal? Mas vejo que através da internet alguns jovens ativistas encontram seu espaço e chegam com respostas prontas quando, na classe, têm sua causa tratada com indiferença. Não menciono a ecologia aqui pois esse é um tema que, ainda que não tratado com a devida importância, já está entre os grandes temas com importância nacional. No Brasil, a candidata Marina Silva, nos EUA, o candidato Al Gore, ainda que derrotados, foram parte de um processo eleitoral, com grande visibilidade, máquina partidária e tudo o mais. Já estão no cenário nacional.

Também os movimentos gays nos EUA e Brasil já estão nesse estágio, onde o diálogo global ajuda, mas já não é determinante para sua existência. Já são nacionais. Mas e os movimentos sociais embrionários? Esses poderão ter voz na grande caixa de ressonância global, a internet. Sempre, sempre tendo em vista o Estado – não digo em nenhum momento que o Estado passa a ser secundário, ou que é um inimigo. (Caso seja um inimigo, aí é preciso reconstruí-lo, mas esse não é o caso entre nós nem entre nossos vizinhos.) É sem dúvida, muitas vezes, um opositor, com suas estruturas arcaicas, seus chefetes locais e nacionais cuja visão não ultrapassa o contra-cheque da amante que sustentam com cargo público. Mas sem o Estado garantindo, às vezes não completamente, os nossos direitos de livre expressão, permitindo que a economia gere os recursos para que compremos nossos brinquedos eletrônicos, ficamos reféns de informações parcas e controladas e ameaçados pela fragmentação.

E então finalizo aqui essa reflexão, esse relato que é de uma vivência, a vivência de estar “em situação de fronteira”, ainda que não em região de fronteira. As fronteiras que nos perpassam, que nos dividem, às vezes de modo tão doloroso, cheio de saudades, de sonhos incompletos. Às vezes de modo tão generoso, poder estar com tanta gente, com tantos em volta, ainda que apenas através do skype, apenas através das memórias. A dúvida entre escolher uma língua ou outra, um país ou outro, e a constatação de que nem sempre se pode escolher, que o mundo não é um supermercado, é mais um shopping caótico onde as alamedas foram traçadas para que você sempre volte à loja mais cara, é uma feira livre onde é preciso conhecer bem os feirantes para que te dêem a melhor fruta e ainda assim às vezes nem o feirante tem a plena consciência do que lhe vendeu.

Assim cheguei à Amazônia. Onde é? Quem vive aqui? Quem veio para cá? São perguntas que fui me fazendo antes da apresentação no congresso. Manaus. Milton Hatoum, a quem pedi um autógrafo para dar a um amigo. Astrid Cabral, poeta de Manaus que conheci em Pittsburgh e visitei no Rio, e através de nossos textos, imaginamos como seriam as nossas vidas se tivéssemos tomado uma o rumo da outra. Os judeus marroquinos de quem ouvi falar, Manaus. Onde é? Aqui.

 

Um adendo que escrevo depois da palestra: Gostaria de agradecer à Márcia pela organização do evento, e ao Nonato que lembrou do meu nome para a mesa sobre globalização. Para mim, bicho de cidade, foi uma experiência incrível ter esse contato com o universo amazônico, que provocou em mim várias reflexões. Sou realmente grata a todos pelo intenso – e prazeiroso – diálogo durante os dias do congresso. As perguntas da Graziela, os questionamentos da platéia, a fala do Nelson, os encontros com o mestrando Fernando e com o pessoal da imagem, a garra do Nonato, as conversas com o Armindo, tudo enfim foi muito especial. Também passei dois dias num hotel de floresta, e dois dias na cidade de Manaus, sobre os quais escrevo outra hora. Agora, gostaria de retomar algumas das perguntas que foram feitas no debate.

Em certo momento da palestra eu disse que Estado forte é o Estado que protege o cidadão, e não o que o ameaça, e as pessoas gostaram bastante. O exemplo que dei foi da fronteira dos EUA com o México, que é um reflexo do fracasso dos dois estados em promover o emprego, do lado sul, e resolver a equação entre consumo de drogas e ilegalidade, do lado norte. Tenho firme a convicção de que o Estado forte é o Estado que garante a liberdade, e instintivamente vejo como fracasso qualquer ação que não tenha esta como objetivo. Mas talvez nossa concepção de Estado não seja essa liberal, o que pode ter feito minha afirmação se passar como nova. Talvez haja discursos que tentem legitimar um Estado pesado, que impõe valores e normas. No caso de uma sociedade pluriétnica e pluricultural como a amazônica, essa visão liberal do Estado vem portanto como alívio. Ufa, então minha existência não vai contra o Estado! Então a diversidade não se opõe a meu país! Alívio.

Houve uma pergunta muito crítica sobre os meios de comunicação, e outra, apesar de feita com deferência, mais crítica ainda. Um rapaz perguntou se eu não via um fetiche quanto aos aparelhinhos de que falava, os celulares inteligentes. Eu disse que sim, que há certamente um fetiche, pois eles simbolizam toda a gama de comunicação possível, e assim como nos anos 70 a televisão era maravilhosa, nós nos encantamos com a internet. E assim como o livro, que ainda nos causa um espanto, um maravilhamento. Não pela tecnologia, mas pela possibilidade de comunicação. Uma moça, que se identificou como membro de uma etnia indígena, disse que eu pintava um quadro tão otimista da internet, mas que ela entrava e via ali coisas preconceituosas contra os índios. Expliquei toda o dilema entre liberdade de expressão e proteção à pessoa, disse que cada país lidava de um jeito com o problema, mas depois me dei conta de que o que ela queria era um conselho, e não uma análise. Sugeri que ela colocasse no seu blog as “verdades e mentiras sobre os povos indígenas”, pois aí quem procurasse pelos estereótipos acabaria aportando no seu blog. E disse ainda que ela se preparasse, pois para entrar no espaço público temos que ter estômago, não é fácil. Mas que era o único jeito.

Também gostaram da resposta! Por quê? Meu palpite é que eu estava dizendo que com todo mundo era assim, que essa é a nossa condição de exilados, tendo que nos justificar a todo instante. E que isso não acontecia porque eram indígenas, mas sim porque viviam numa sociedade onde a diferença impera. Mais ou menos confortáveis, mais ou menos aceitos, temos todos que entrar nessa batalha do discurso público. Ser indígena pode ser algo bem particular, mas ter que buscar um lugar ao sol é algo geral… No geral, a palestra funcionou – me permitam abrir mão da modéstia, mas é que realmente foi muito legal – pois me coloquei como… um índio da cidade, digamos assim. Alguém com suas fraturas, seus deslocamentos, tendo que conviver com várias audiências como os sujeitos de Irving Goffman (Goffman, 1975), e se apresentando de vários modos mas ao mesmo tempo tentando criar um núcleo coerente, ou seja, uma representação para mim mesma, minha platéia permanente a quem também devo satisfações.

Fiquei com a impressão de que o Estado e a sociedade brasileira lhes são mostrados como algo bem resolvido, coerente e forte, enquanto a todo o tempo eu mostrava as fraturas, os dilemas, o global como algo em construção. E se você é parte do território brasileiro desde sempre, desde antes de o Brasil existir, mas três gerações atrás você não falava português e só agora entra na faculdade, essa visão não-monolítica da sociedade é um alívio. Se você se dá conta de que nos centros decisórios nacionais e globais as pessoas também estão tateando, então encontrar um lugar nessa ordem parece menos inatingível. Penso que quando, na palestra, desenhei com o braço uma linha imaginária que passaria pelo meu corpo, de cima a baixo, e disse que “a fronteira passa por mim”, algum elo se formou entre a platéia e a minha experiência, alguma identificação inesperada.

Para mim, o seminário foi um momento de resgate da importância da teoria sociológica. A imagem dos rostos sorridentes e atentos na platéia vai ficar sempre na minha memória.  Pareciam buscar na universidade e no seminário algo que, eu acredito, tanto a universidade como o seminário podem de fato dar: um lugar para expressar seus desejos e imaginar modos de concretizá-los, nesse país cheio de problemas e cheio, também, de jeitos maravilhosos de lidar com eles. Esse é meu objeto de estudo, meu ganha-pão: cidades globais, meios de comunicação, democracia, cultura jovem. É em torno disso que monto meus cursos e escrevo meus artigos. Mas em Manaus encontrei um novo sentido para esses termos, um sentido mais vivo. Obrigada!

Bibliografia

BRAUDEL, F. Civilização material, economia e capitalismo. São Paulo: Martins Fontes, 1995.

GOFFMAN, E. A representação do eu na vida cotidiana. Petrópolis: Vozes, 1975.

KRUGMAN, P.; ELIZONDO, R. L. Trade policy and the Third World metropolis. Journal of Development Economics, v. 49, n. 1, p. 137-150, 1995.

MCQUIRE, D. S. The media city: media, architecture and urban space. Sage Publications, 2008.

SIMMEL, G. Sociologia. São Paulo: Ática, 1983.

TAYLOR, P. J. World city network: a global urban analysis. Routledge, 2003.

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