Televisão em Israel

Ontem vi Revolução 101, de Doron Tsabari, no Centro de Cultura Judaica. Sabe aquele gênero Michael Moore, onde o cara pega uns políticos para descer a lenha, e cria uma narrativa toda tendencioso e boçal?

Pois é, o cara tenta mas acaba fazendo um filme excelente! Muito gostoso de ver, muito bonito. A resenha está aqui, é sobre um cineasta, Doron, acho que mizrahi, ou ao menos a cara escrita de um mizrahi com quem eu saí em Israel, que tenta mudar a TV pública israelense.

No caminho, a gente vai tomando contato com a cultura política israelense, fechada, ideológica, apadrinhada, corrupta. Mas as imagens confundem o olhar brasileiro, pois os corruptos moram nuns predinhos bem simplesinhos. Os poderosos têm umas secretárias bem feinhas e mau-humoradas, nuns escritórios atulhados.

O prédio da Suprema Corte é bonito. O resto é de chorar, poderosos ou não.

Aí o diretor acha que um parlamentar que os apoiava se vendeu por uns minutos na TV, mas que nada. O cara – o único jovem alinhado, estilo moderno, executivo – larga o governo por princípios, por causa do fracasso da guerra do Líbano!

Os outros políticos com aquele jeito israelense, desleixado.

O diretor da TV estatal cínico, apadrinhado do Sharon, acaba fora da jogada.

Olmert, retratado como frio, sempre apressado, ardiloso, é quem acaba apoiando a reforma, mesmo quando o jovem parlamentar largou seu governo.

Todo mundo conhece todo mundo. Isso é a fonte dessa cultura corrupta e apadrinhada, mas também permite que o cineasta vá lá abrindo as portas, torrando a paciência dos políticos até que se cansem.

No dia da votação da reforma, claro, a mãe do diretor que acha aquilo tudo uma enorme perda de tempo, pois o cara já tem 37, e depois 43 anos, e não tem onde cair morto, vai no Parlamento. E no final adora o resultado, que mãe que não adoraria?

Olmert diz para ela, no começo pouco à vontade, o que essa mulher está fazendo aqui?: “Filho é assim, a gente tem que apoiar. Minha filha estuda literatura francesa. Pra quê? Por que ela gosta, fica feliz.”

Numa cena anterior, o comitê supervisor da estatal se reúne para discutir um artigo do Haaretz muito crítico à TV, que estaria fazendo culto à personalidade de Sharon. Uma velhota do comitê pergunta: “O que é isso, a Coréia do Norte?”

Mas no fim das contas o próprio Doron é quem faz a melhor apologia do sistema, onde fronteiras de classe e poder parecem sempre muito muito frágeis.

Aproveitando a oportunidade, já viram meu “Por que você não vai para Paris?”

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Uma resposta em “Televisão em Israel

  1. O filme de hoje, Epifanias do Cotidiano de David Perlov, já não era tão bom. Na verdade, eram anti-epifanias, momentos esvaziados de significado. Até o segundo episódio, não consegui entender de onde tamanho desamor, tanto por Israel como pelo Brasil, dois países que, pelo que eu conheço, estão entre os mais fascinantes do planeta.

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