Idishinópolis

Higienópolis, apelidado pelos próprios judeus de Idishinópolis. Bairro central de São Paulo. Minha avó ia a pé até o centro já bastante idosa. Depois de reclamar que o Alfama era muito caro. Eu mesma nasci lá, ainda tenho um apartamento lá e pretendo voltar ao bairro em breve. Minha melhor lembrança: as aulas na Cultura Inglesa da Avenida Higienópolis, onde aprendi esta língua tão maravilhosa. Fora a Cultura, minha vida era fora do bairro: a escola no Pacaembu, a Hebraica, os amigos nos Jardins e no Pacaembu. Pois éramos “judeus assimilados”, então não tinha essa coisa de sinagoga e escola judaica.

No bairro dá pra fazer tudo a pé. Correios, escolas, universidades, faculdades, supermercado, consultório médico, academia, tudo. Aulas de inglês. Floricultura. Barbeiro. Coisas antigas, coisas novas. Ainda volto lá. Tem os condomínios antigos, que deveriam ter sido modelo para São Paulo, com amplos jardins internos, sociabilidade de cidade do interior. Falar mal do bairro? Feito de gente que não foi para Murombi? ou pra Alfavazio? Se não é anti-semitismo, o que é?

Não é que não pudessem ter ido. Claro que podiam. Ou não dá pra vender um antigo apartamento na Avenida Angélica e comprar um minimoquifo na Giovanni Gronchi? Para entupir as pontes e viadutos todo o dia, pressionado os gastos públicos e a paciência dos metropolitanos? Mas as pessoas ficaram. Pois estava bom, então pra quê mudar? Estão lá há décadas, moradores antigos. E foram contra o Shopping. Por quê? Porque era novidade. E gente conservadora, no sentido literal da palavra, gente que quer conservar, não gosta de novidade.

Não era questão de chique ou popular. Era pra manter o bairro do jeito que estava. Depois adotaram o shopping, e outro dia queria saber onde era a Sefer e estava no shopping. Virei para meu amigo e disse: Aquele povo ali é judeu? Será que conhecem? Ele olhou um por um e disse: tá vendo o mais novo ali? É a cara do Shimon Peres. E não é que era mesmo? A cara escrita do Shimon Peres. Então fui lá e perguntei da Sefer, e eles sabiam. Meu amigo é daqueles que se acha cristão-novo. Mas nesse caso eu acho que tem chance, pois o espírito crítico dele, amargo e divertido ao mesmo tempo, bom, se não for bem poderia ser.

Então do jeito que rejeitaram o shopping rejeitaram o Metrô. Não sei se todos, aqueles mais ativos nas associações de bairro, os mais conservadores, no sentido acima. Pois para a maioria tanto faz, como em todo lugar. Por que não vão todos fazer churrasco na ponte do Morumbi e os deixam em paz? E não digo isso só dos ricos, não. Pois os pobres também abandonaram a Zona Leste próxima ao centro, com o sonho – legítimo, claro – de ter sua casa própria no Extremo Leste de São Paulo, sabe onde é isso? Já foi pra lá? É longe! E taca investimento em educação, em transporte.

Se o Metrô for para Higienópolis, vai acabar sendo assimilidado pelo bairro, que não é feito de gente intolerante que vive murada, é feito de gente que quer estar na cidade, no mundo. Se for mais ali pra baixo, no Pacaembu, vai ser bom também, mais uma opção. Agora, medo de camelô eu também tive quando fizeram o metrô aqui na Vila Madalena. De vez em quando o pessoal abusa, os caminhos ficam intransitáveis, aí alguém deve reclamar e deve vir uma fiscalização, mas é uma preocupação real, não há nada absurdo nisso. Se você nunca trombou com um camelô em fuga da fiscalização no centro de S. Paulo então você é que não frequenta espaços públicos urbanos, e não os velhinhos de Higienópolis.

Higienópolis deveria estar sendo saudada pelos movimentos pelo transporte público, pelo pedestre, pela bicicleta, como modelo, como exemplo de que ficar na cidade compensa, vale a pena, é melhor para todos. Se não está sendo, então é anti-semitismo, pois outra razão não há. Agora, deixa eu explicar, não é o anti-semitismo de uma piada grosseira. Essa apenas revela o absurdo da coisa toda. Eu acho que os humoristas devem ter uma licença especial de grosseria, pois caso contrário nunca poderiam arriscar. Acho que a crítica a eles resvala da limitação à liberdade de expressão e deve ser evitada. Além do que, no caso do sujeito de CQC, eu até cheguei a dar risada, pois de fato detesto pegar trem na Europa, me sinto mal e tudo. Estou sempre acompanhada de fantasmas. Então eu ri. Macabro e grosseiro, mas ri, e esse é o papel do humorista, fazer a gente rir do ruim, da derrota, da vergonha, e assim por diante.

Anti-semitismo profundo, aquele que se esconde em ressentimentos contra a “elite”, contra os “estadunidenses”, o “sistema financeiro apátrida” e outros termos mais que no fundo querem dizer o mesmo: aquelas pessoas diante de quem eu me sinto um bosta, pois afinal de contas só mesmo eu sei o quão bosta sou. Ressentimento contra a elite nada tem a ver com as chances que você teve na vida. Tem gente que teve poucas chances e soube aproveitá-las e está contente com o que alcançou e não tem nada contra ninguém. Tem outros que tiveram tudo e mais um pouco, são uns medíocres em busca de desculpas para o fracasso e ótimos candidatos ao fascismo de direita e esquerda.

Também não tem nada a ver com as suas concepções de política internacional. O sujeito pode ser um ferrenho crítico da política americana e nem por isso deixar de ver esse país com olhar interessado, humano. Ressentimento é algo mais psicológico, mais arraigado, um modo de ver o mundo. O cara pode até não gostar de judeus e está no direito dele, quem sou eu para seduzi-lo?, e não ser um anti-semita, que é um cara que acha que sua miséria precisa de uma desculpa.

Bom, a miséria da locomoção dos paulistanos é fato. Temos uma cidade maravilhosa onde os pedestres têm que se desculpar por atravessar uma rua, os usuários de metrô devem se expremer em trens, os donos de carros passam horas parados e todos tem medo de que um dia a cidade pare completamente. Essa miséria precisa de soluções. E não de bodes expiatórios, no melhor estilo dia de judas.

Um adendo: Como educadora, muita gente me procura para tentar frear de algum modo os sentimentos “anti” que são presentes na universidade. Os sentimentos anti-mídia, anti-americanos, anti-israelenses. Eu procuro mostrar que não é o que vem depois do tracinho que importa, e sim o que vem antes. O sentimento de impotência, fracasso, inutilidade. Não há freio possível. O que há – a única alternativa – é fortalecer o estudante, mostrar que ele é capaz, útil, desejado em sua individualidade. O aluno cujos textos são lidos, elogiados, criticados, citados, debatidos, é um aluno que poderá ter suas preferências políticas e pessoais, mas não será presa de movimentos cretinos que manipulam suas insatisfações. Um aluno que pode pensar de modo autônomo refletiria antes de descontar nos velhinhos de Higienópolis toda a frustração com a nossa megalópole impossível. Pronto, falei.

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