Talvez tenha algo a ver

Estou um pouco perplexa com essa unidade do Rio de Janeiro a favor da ação das forças armadas na caçada aos traficantes da Vila Cruzeiro/Alemão. Estamos falando das forças armadas desse país enorme, de quase 200 milhões de pessoas, país que quer ter assento no conselho de segurança da ONU; não se trata de um empresa de vigilância de condomínio. Parece que o custo mesmo, até agora, pelo que se sabe, em vidas para a população dos morros, não vai ter dimensões trágicas. Além disso, são populações que tem convivido com tiroteios, execuções, ameaças, mesmo quando não estão sob holofotes. Mas ainda assim há algo grotesco nessa desproporção. Era preciso isso tudo? E por que Vila Cruzeiro/Alemão?

Pelo que li nos jornais, foi porque alguém achou que tinha algo a ver com os ônibus incendiados. Alguém também achou que a mulher de um traficante talvez tivesse algo a ver com uma ordem de ataques que pode ter sido dada da prisão ou não. Então a prenderam; foram à casa dela e a prenderam, a TV mostrou que a geladeira de 5 mil reais era incompatível com sua renda. Mas viver acima dos meios legais gera cadeia, assim sem mais nem menos? Haveria cadeia para todas as esposas de políticos que vivem acima dos meios? E por que ela?

Por que não interromper a entrada e saída de drogas e armas, pelo Galeão, pelas estradas? Por que não revistar um a um? Bom, óbvio, porque é mais incômodo ser revistado por meganhas do que assistir pela TV um bairro distante ser cercado pelo exército. E muita gente parece estar disposta a tudo, no Rio, para ganhar essa guerra, inclusive ver pela TV algumas cenas cinematográficas. Por que não tirar na porrada as Farc do norte do país, por exemplo, uma boa idéia se a gente quisesse se porteger do crime organizado? Também é óbvio, porque isso contraria a agenda do governo federal, e não contraria a agenda do governo federal cercar um bairro com tanques, mesmo sem um plano claro para o bairro depois da invasão.

Por que não chamar os governos dos países produtores de cocaína e dizer que basta, que assim sim, mas assim também não, e que façam algo com urgência? Por que isso também não interessa, no momento, ao governo federal, pois isso sim seria um problema para resolver, enquanto mandar tanques para dobrar uns pobres-coitados (armados, perigosos, mas desorganizados e despreparados) não é exatamente um grande desafio diplomático ou militar. Enfim, por que fazer algo difícil e efetivo, quando se pode fazer algo fácil, à margem da lei?

Por que não investigar a origem dessas armas e uniformes, do exército e das forças policiais, que volta e meia se materializam entre os traficantes? Claro que algo precisava ser feito. Assim como depois de 11 de setembro, algo precisava ser feito. Então os EUA invadiram o Iraque, que talvez tivesse algo a ver. E grande parte dos americanos achou que sim, que se talvez tenha algo a ver, então é o caso de ir, mesmo que as cenas na TV sejam meio chocantes. E estamos aí, aplaudindo os tanques que passam, unidos pelo bem do Rio, indignados com a geladeira da esposa do traficante, cada vez mais parecidos com os americanos, no que eles não têm exatamente de melhor…

E em São Paulo, nos ataques do PCC? As imagens não foram tão grotescas, não houve tanques. Mas houve execuções que, até onde sei, não foram investigadas. Simples “dar o troco” em cidadãos de bem a que a sociedade preferiu fechar os olhos, em nome da união contra um inimigo real, o desrespeito às leis.

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