Um homem que gosta de si

No domingo, naquela tarda cinzenta em que você acredita que nada mais vai acontecer não só no dia, mas no mês e na vida, reencontrei um homem que gosta de si. Eu já tinha esquecido o espetáculo que é, ver um homem que gosta de si, que se afaga com palavras e projetos e gestos e especialmente com olhares entusiasmados em volta de tudo, bebendo tudo, bebendo o mundo que é dele. Por que já havia esquecido? Não sei, onde andam os homens que gostam de si? Os que não têm depressão nem neuroses, os que acham o mundo basicamente bom pois é, afinal de contas, o mundo deles? Os homens não andam um pouco neutros? Sensatos? Amargos? Tristes? Ou é minha impressão? Enfim, encontrei um homem que gosta de si. Cuja companhia lhe faz bem. Cuja única mágoa é não poder escutar todos os aplausos que decerto lhe dão, nesse mundo global tão espalhado. No mais, pequenas incompreensões, nada de mais, no mais o mundo é bom, seu país é bom, e se não fala que é o melhor é por falsa modéstia. E que prazer estético vê-lo construindo a atenção para si, para si, para seus planos, seus desejos, suas crenças. Embarcar nesse amor um pouco de carona, que gostoso que é, eu tinha esquecido. Porque com 20 anos a gente se apaixona tão perdidamente pelos tipos que nem curte. Sofre com a falta de correspondência e tal. É dramático. Depois com 30 o feminismo já amargou tudo, não consegue vê-los com a atenção que merecem, tudo perde a graça, exploradores. E só agora a gente aproveita sem se destruir, estilo Ulisses no barco, fica olhando, o serve, faz perguntas inteligentes que são trampolim para o seu ego. Ah, delícia. Delícia. Recebeu meus elogios como deve ser, concordando! Sem retribuir, pois nem é o caso. Condordou, até reafirmou: “É mesmo o que andam dizendo.” E fiquei sorrindo feliz, que presente aquele, havia esquecido, que bom escutá-lo, alguém que gosta de si. Alguém que olha os outros e diz, sereno: “Sou melhor.” O mundo é melhor com gente assim. Sem Ahmadinejad, sem rancor nem Prozac. Com homens que se olham no espelho e esse é o melhor remédio. Voltei pra casa também eu me gostando mais. Me achando mais viva e importante que quando havia saído. E depois, para me contestar, encontrei em seguida outro desses homens que gostam de si. E aí não foi o mesmo. Aí senti falta de meu espaço, de me ouvirem também, quis ir embora e não ser mais trampolim. Mas não foi só isso não. É que me lembrei do meu pai, de seus gestos e sonhos e histórias e piadas e espelhos e daquela sede de atenção que talvez hoje os homens tenham perdido? E aí, bem, aí senti falta daquelas piadas originais, daquele modo de ser que era único, inimitável. Que tinha uma inteligência infernal por detrás, não era um narcisismo babante. E aí senti saudades.

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