Tel Aviv, dia 22

Yesh Carnaval.

Hora de ir voltando. Hoje me deparei com a famigerada estupidez israelense. É algo que vem do nada, e feroz. Nessas discussões urbanas, troco, banco, telemarketing, etc., o que for, eu é que tendo a partir pra cima. Geralmente com um motivo. Foi tão do nada que pensei que a pessoa fosse meio pirada, fiquei com medo. Engraçado isso, esse medo. Fugi. No final não era nada, era apenas a estupidez de que todos falam e que eu ainda não tinha encontrado. Mas a moça me intimidou. Não era a indiferença americana, escuta, quando você souber o que quer me liga de novo. Algo bem agressivo.

Enfim, piscina salgada de novo, delícia. Enviar emails para os amigos que se preocuparam, obrigada a todos. Legal que muitos perceberam que o texto era muito ruim para ser meu, obrigada também. Hoje a internet estava lenta e gato escaldado tem medo de água fria, será que vão hackear de novo? Passear pela Dienzengoff, comprar presentinhos, antes entrar em pequenas lojas, olhar as galerias, escutar música brasileira no restaurante cubano (aquele que eu achei que era gay, lá no primeiro dia).

Um dos músicos é conhecido de um dançarino que conheci no começo da viagem, já estou íntima aqui. O país é minúsculo, a impressão é que todo mundo se conhece. Por exemplo: ontem vi uma manifestação em frente ao Knesset em defesa dos animais. Jovens vestidos de galinha, com fotos de galinhas engaioladas, de ovos, provavelmente pedindo para a gente não comer ovo. Aí ligo a TV e quem está lá? O menino fantasiado de galinha.

Ler mais do Yizhar. Me lembrou um pouco a Clarice Lispector, uma Clarice mais amarga, mais sofrida. A descrição minuciosa, os sentimentos, o estar sozinho, as pessoas como máscaras. Mas posso estar viajando, pois leio a tradução. Muito bom. Li uma história longa cujo enredo é simples: um trabalhador no kibutz quer mudar de ocupação, e leva o assunto para a assembléia. Só isso. O conto é o que acontece na assembléia, as pessoas, as hesitações, os sonhos. Clarice + Orwell, pois a assembléia é o 1984 sem o gim. Sem o Grande Irmão. Só as pessoas mesmo, só o socialismo. Sem a polícia. Sufocante. Pois não há quem temer, quem odiar no conto. Cada um é ao mesmo tempo vítima e algoz.

Me lembrei, lendo, dos 10 dias que passei no kibutz, e entendi por que não contei nada da viagem, como me acusava minha avó: “O que houve nessa viagem que v. não conta nada?” Vou contar que um dia andando no kibutz os cachorros me viraram a cara? Vou contar que uma peça de alumínio que eu tinha que lixar acabou indo pro lixo pois não fiz direito? Não há como contar coisas assim. É o sentimento de inadequação, de estar sobrando, de não ter com quem falar, demora para a gente ter recursos para falar disso. Havia um senhor mais velho, acho que nascido na Europa, eu não me lembro, mas em Israel desde muito jovem, que me convidava para tomar chá no final do dia. E me contava histórias. Só esse encontro aconteceu mesmo. Me serviu chá e eu me senti gente. Era um judeu como eu. Os outros – o ruivo da fábrica que estava no kibutz por segurança, as meninas européias insuportáveis, com quem eu dividi o quarto, aquelas pessoas todas, máscaras. Também me lembro da máquina contínua de lavar pratos, nunca tinha visto coisa parecida, isso é coisa narrável? E, por fim, uma cena tão bizarra que nunca quis acreditar no que vi, e agora faz sentido.

Enfim, um autor excelente. Será que é traduzido para o português? Para mim seria melhor. Por indicação dos músicos fui à noite escutar um samba na praia, na parte sul de Tel Aviv. Só de ver as pessoas dançando, um sorriso leve na cara, uma música simples, fiquei feliz. E depois percebi que fiquei feliz e me emocionei. Yesh carnaval, tem carnaval, o melhor hebraico é o de desses brasileiros, músicos, artistas, negros, mineiros, cariocas, pernambucanos, que vem para cá. Eles falam sem aspereza, é bonito de ouvir. Parece outra língua. Eles vêm pois Tel Aviv é cidade de praia e israelense gosta de música brasileira. Não estão aqui por ideologia ou religião. Ou fugindo de alguma coisa. Estão aqui pelas coisas boas daqui. São brasileiros.

Aí conversei com um israelense de origem iraniana, e já era hora de descansar, pois a semana terminou. E semana que vem, em São Paulo.

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