Haifa, dia 14

Sair de Jerusalém foi bem fácil. Foi como sair da cidade velha, uma sensação de voltar ao mundo normal. Tomar um ônibus, chegar em Haifa, o professor de Haifa iria me pegar aqui. Argentino, saiu antes da ditadura, mas já pressentindo. Cada pessoa um história, um país, uma decisão. Especialista em mídia, talvez façamos alguma coisa juntos. Há interesse aqui? Há sim, ele me disse. Um país aberto e fechado, tudo muito difícil de definir. Na estação, esperando ele, teclando no computador, um rapaz falou qualquer coisa em hebraico, rindo. Eu perguntei o que era, era só uma piada. Alguém traduziu, ele quis saber se eu estava vendo algo interessante. Mas era um comentário banal, então ele mesmo nem traduziu. Sorriu, pediu desculpas. Acho que é esse jeito israelense, invasivo, irônico, familiar. De qualquer modo, todos falam em hebraico comigo, não sou turista. Não entendo nada da língua, outro dia num internet café percebi que o botão do brower para ir pra frente é o pra voltar, e vice-versa. Mas tenho o jeito, a aparência da elite do país, então falam comigo em Hebraico.

Mas estou tensa. A viagem chega ao meio. O que vi? O que vou ver? Fico uns dias a mais? O meio é sempre um pouco difícil. 42 anos. O meio.

Contei de minhas conversas, e o professor perguntou: e de mim, que palestra você quer? Bom, uma coisa simples que ele disse, que explica muito. Há uma diferença social entre os árabes que saíram em 1948 e os que ficaram e obtiveram a cidadania. Esses últimos eram operários, árabes cristãos. Os que saíram era a elite, na maioria muçulmana, que pensou que em alguns dias voltaria.

Não voltaram.

E os operários se integraram a essa sociedade moderna, com maior escolaridade e renda. A antiga elite se tornou refugiada. Alguns voltaram nos meses e anos depois do armistício, famílias de férias no exterior, casos individuais que teria que pesquisar. Em Haifa, muitos ficaram, estão aí, 20 % dos estudantes da universidade. O vice reitor de pesquisa. Um pesquisador sobre radicalismo islâmico. São israelenses, e vistos como tal nos países árabes. Para alguns podem ir, para outros não. Pois tecnicamente esses países estão em guerra com Israel, então não podem entrar.

Medo mesmo, do Irã. Pois o Irã, a revolução no Irã é que mudou o cenário aqui, de secular para religioso. Nasser para Aiatolá. O Irã e o colapso soviético. Os palestinos recebem dinheiro de fora, e é isso que alimenta o conflito. Enfim, a visão dele é geopolítica. Outros acham que o café com o vizinho é que pode ajudar, outros que eu digo americanos. Pois só num lugar onde todo o arcabouço jurídico faz sentido é que só falta o café com o vizinho. E nos lugares onde isso não acontece? Aí o café é só café.

Mas estou tensa. Quero voltar. Para Tel-Aviv? São Paulo? Marília? Meu quarto acarpetado em Boston? Quero comer begals em Nova York? O picadinho do Tubarão? Mais uma salada com hummos? Está saindo terrina pelo nariz. O artista brasileiro me ligou, vamos tomar um café quando eu voltar para Tel-Aviv. Por que “voltar”? “Voltar” é uma palavra meio pesada aqui. Quem é que volta para onde? A Helen que falou, por que não voltam todos para a Polônia? Sacanagem, justo a Polônia!

Depois falamos da vida, das reunions, de como podem destruir nossas memórias e mitos. Contei uma história pessoal. Ele contou outras. Eu não vejo nem a coisa geopolítica, nem a coisa do café. Vejo a coisa do país, nacional, nacionalidade, cidadania, currículo oficial, serviço militar, essas macro instituições. Não é isso que faz um país? Não é o café da esquina. Quando a paz depende do café, bem, que paz? E se eu acordar de mau-humor? O dinheiro move o mundo, claro, ainda mais o dinheiro do petróleo, farto, jorrando sem esforço. Mas se não houver motivo para brigar ninguém briga.

O que mais? Falei do pesquisador que conheci ontem, da Hebrew, que estuda um monte de coisas diferentes ao mesmo tempo? Não falei? Eu achei que eu era interdisciplinar. Que nada, sou meio bitolada. Um dos seus artigos é sobre o conceito de testemunho, que ele resgata da Bíblia para entender os meios de comunicação hoje. Apenas isso. Dois universos que na minha cabeça eram distintos, e ele faz esse malabarismo intelectual, de te deixar um pouco zonza. Será que minhas aulas são assim para os alunos? Será que os deixo zonzos? Recebi o calendário de reposição da Unesp. O mundo consertado pela portaria do calendário novo.

Parece que as pessoas vivem em tempos diferentes. O mapa de Israel incluindo toda a região, o da Palestina incluindo toda a região. Não é disputa por território, é disputa por tempo. Em que tempo estamos? No tempo dos fundadores da Hebrew (mais o menos o tempo dos fundadores da New School, talvez por isso tenha me sentido bem lá.), o tempo da Europa moderna, pré-catástrofe? No tempo americano das donations resolvendo tudo? No tempo da destruição romana? No tempo do shtetl (ou nas comunidades dos países árabes), tempo esquecido, apagado. Que língua vocês falavam em casa? Hebraico, claro. Que outra língua? De onde você vem? Eu venho daqui.

No tempo do império otomano, britânico? Num tempo futuro, messiânico, quando o messias vai vir, ou quando os judeus vão embora? O único tempo no qual posso falar com as pessoas é, obviamente, o tempo secular, o tempo das universidades, o tempo moderno. O resto seria má antropologia, pontes falsas, “tem alguém aqui que foi estuprada e fala inglês?” Vou tentar ainda falar, nessa viagem ou pela internet, com professores árabes, se der alunos. Pois eles habitam, ainda que talvez não o tempo todo, esse tempo, assim como eu também habite outros tempos em alguns momentos.

Tempos superpostos. Nas Américas, isso existe? Existe uma tensão entre tradição e modernidade, claro. Mas é uma gradação. Aqui parece uma ruptura, uma superposição mesmo. Quem habita os dois lugares? O tradicional e o moderno? Devem ser interessantes. Deve ser enlouquecedor.

Encontrei minha best friend! Todas as minhas boas viagens encontro uma best friend, e estava sentido falta. Bom, ela me levou para uma aldeia drusa, que parece uma cidade normal, tirei fotos. Turística, lojinhas, cafés. Mas a aldeia é drusa. E ela me disse: escuta, eu me escondo aqui. Tomo meu café, como esse doce, pois esse lugar é insano. E aqui não entendo o que falam, então relaxo, leio meu livro. Então não conte pra ninguém desse lugar! Achei legal. E falamos da vida, dos homens, das decisões, de nossos países de origem. Falamos da cultura israelense, ela detesta hummus. Mas é onde acabou vivendo, então assim que é. Já reparou que aqui ninguém ri?, ela me perguntou. É verdade, eu não havia reparado. Há ironia, sarcasmo, mas rir de gargalhar, se entregar ao prazer do humor, de fato. E ela ria mesmo das minhas piadas. Tipo: achei legal a declaração de independência de Israel, você lê e vê que os caras pararam para pensar. Mas não é tão profissa como a constituição americana, você percebe que foi feita às pressas. Ela riu, é verdade, não é tão profissa! E depois falei: olha, não sou uma escritora publicada, mas sou reconhecida. Ela riu, o inverso seria bem pior.

Depois vim jantar na casa de amigos do meu irmão, fico aqui alguns dias. Não quero fazer nada. Todos dizem que esse lugar é mesmo muito intenso, que tudo é muito forte. Estou meio esgotada. Então só comi, falei do meu irmão, das sobrinhas, escutei mais uma análise geopolítica brilhante, e mais uma história de vida fascinante, cada vez aprendo mais. E vi televisão israelense, Israel Idol. Com o mesmo júri, os mesmos candidatos, as mesmas músicas. Cultura popular global.

Ah, não escrevi no post 1, mas um email que escrevi para um colega. Que no avião parecia que todos falavam em código. Aí chegando aqui achei besteira, é a língua deles. Mas a idéia de que falam em código não me sai da cabeça…

Sabe uma coisa que os homens falam muito? Das colaborações militares de Israel. Quanto mais virulento o discurso anti-Israel, maior a cooperação militar. Turquia, treinamento de pilotos. Jordânia, defesa contra Síria, Iraque. Argentina, anti-terrorismo. Brasil, equipamentos militares. A lista continua. EUA, teste de equipamento. Na verdade, Israel não precisaria da ajuda militar americana, era até melhor produzir aviões ao invés de comprar. Mas como é de graça, e pra ajudar a economia americana, compram.

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