Tel Aviv, dia 10

Pela manhã trabalhei, escrevendo para professores, combinando a semana com as pessoas. Depois à tarde fui para Tel-Aviv – estou em Ramat Gan – de van, onde as pessoas se sentam e passam o dinheiro de mão em mão, até o motorista, que passa o troco de mão em mão também. Já falei que é mito que todo mundo fala inglês, não? Em Ramat Gan tem gente que fala, tem gente que não fala, e tem muita gente que entende o que você diz mas não sabe responder. Claro, eu devia ter aprendido ao menos os números. Mas os números em inglês acho que até no Brasil o pessoal sabe, não?

Conheci uma americana e fomos almoçar num café super bonito, eu já tinha estado lá, perto do Diezengoff center. Falamos de coisas íntimas, projetos de vida. Uma israelense entrou no papo em hebraico, e ficamos dançando nas duas línguas. Aí a israelense perguntou como era ser judeu no Brasil. Eu disse: normal. Não é normal? É normal. Ela contou que ficou apavorada na Austrália, durante a segunda guerra do Líbano. Mas te ameaçaram ou algo assim? Não, mas falaram coisas horríveis. Olha, eu disse, quando falam a gente responde. Ah, mas a memória do holocausto está muito presente para mim, ela continuou. Eu estranhei. Não que eu tenha passado por isso, ela continuou, nem meus pais, mas a memória está muito presente. Estranho, né? Ter medo de uns australianos desaforados por conta do que os alemães fizeram?

Acho que na diáspora a gente tem mil gradações para o anti-semitismo. Vai desde o comentário vazio, passa por aquele amigo anti-semita que a gente gosta então tolera, até o sujeito que realmente se tiver uma oportunidade te come vivo. Não sei como, mas a gente bate o olho e já sabe quem é quem, já dá uma nota mental. Aqui parece que fica tudo num pacote só. Quando eu era criança nos ensinavam a identificar os aviões no céu, me disse o senhor do futebol. Não há meio termo. “Eles.”

Enfim, comprei a tal máquina, que nem queria muito comprar. Uma Olympus, acho. Liguei para o senhor do futebol perguntando onde era mesmo a loja que ele tinha me indicado, eu estava em frente e comprei sem pensar. Sei lá, minha máquina querida meu pai que deu, essa aqui é só um aparelho de registro de imagens eletrônicas. Depois ele me convidou para ir atá a casa dele, uma dessas Bauhaus que tem aos montes aqui, bonita mas todas tão mal cuidadas. Convidou não; foi dizendo como eu chegava lá, sem convidar.

Me contou a vida, me falou de um ressentimento. Coisa simples, que eu também passei, passamos todos, para mim ficou uma pequena mágoa na qual não penso muito. “Eu devia perdoar”, ele disse, “eu sei.” “Você devia perdoar a si próprio”, eu respondi, mas o cara não me botou para fora. Disse que eu tinha razão. Aqui ninguém fica melindrado. Podem gritar, não te escutar, mas difícil melindrar alguém. Gosto disso. Gosto?

Não é tudo muito íntimo? Conheço uma isralense que fugiu do país por causa disso. Agora entendo. Todo mundo dando palpite na sua vida, chega uma hora você quer tocar a sua vida. Simmel? Acho que ficaria confuso aqui. Cidade grande ou aldeia? Cosmopolita ou clã? 200 línguas ou uma só? Como é que faz para preservar a individualidade, aqui? Não sei bem. Como nos outros lugares, hobbies, interesses? Pela política penso que é impossível. Pelos graus diversos de religiosidade? Não aqui em Tel-Aviv, pois todos parecem mais ou menos como nós, seculares.

Ah, à noite fui ver a final na praia com a americana. Futebol é sempre bom. Vi moças muçulmanas, vi moças negras, vi orientais, mais misturado. Legal. Tirei fotos, mas não acho que saíram boas. Ao sul, Yaffo iluminada. O Serginho me perguntou se é possível Israel sem maioria judaica. Bom, não tem outro jeito, tem? O país se desenvolve, as pessoas querem ir pra lá trabalhar. Mesmo o conflito com os árabes tem um componente econômico, não consigo me convencer do contrário. “Mas o país é minúsculo, não cabe todo mundo”, eu ouvi. “Já temos problemas demais.” Mas é o mercado, quando os apartamentos todos de vocês estiverem limpos e as paredes pintadas, o pessoal deixa de vir. Ninguém sai de casa para passar fome. Falando em apartamento, saudades da Márcia. Ela ganharia um bom dinheiro aqui.

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9 respostas em “Tel Aviv, dia 10

  1. Escreve sobre isso. País pequeno é sufocante, a não ser que as pessoas sejam mais distantes. Os escandinavos só se aguentam porque deixam os vizinhos em paz. Se bem que na vila mais engraçada da Dinamarca, Ærøskøbing, as casas tem espelho na janela para ver quem passa pela rua.

    Faz um modelito sociológico de como as pessoas são atraídas pela anonimidade do país grande. País médio eu não entendo. Nunca entendi, nem vou entender. São todos divididos por serras, vales, e dialetos.

  2. o que atrai nao deve ser o anonimato de pais grande. nunca soube de grandes ondas migratorias para a china e para a russia.
    o que atrai é mercado de trabalho. am i wrong?
    abs
    sgold

  3. Oi, Heloisa, pensei em você por causa de sunscreen e resolvi ler o seu blog da viajem. Parece bem legal, a sua experiência, vou checar de vez em quando. Abs, SVS

  4. A cidade grande atrai sim. O caso dos gays, por exemplo, é bem claro. As pessoas saem da cidade pequena opressiva apenas para encontrar uma massa crítica de gente como eles, muitas vezes enfrentando dificuldades econômicas. Na verdade, o caso dos judeus também é parecido, pois você precisa de uma massa crítica de pessoas para formar sinagogas, escolas, cemitérios.
    A Rússia não sei se é um bom exemplo, pois não há anonimato, liberdade, diversidade, perder-se na multidão. Berlim, Nova York, Chicago, São Paulo, sim. Mas acho que o Felipe sugeriu examinar não a causalidade, mas a conformação da cidade. Boa idéia. É o que estou vivendo desde que cheguei.

  5. Na China também há cidades grandes. Mas a questão é cidades que atraem muita gente, de diversos países, culturas. Aqui é complicado, pois são todos diferentes, mas todos têm um passado comum. Então há ao mesmo tempo a intimidade da era pré-moderna com as diferenças de uma cidade moderna. Não sei bem como analisar, é um caso meio único, não?

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