Tel Aviv, dia 8

Sabia que essa viagem seria intensa, mas não pensei que fosse ser tanto assim. Não me sentia desse jeito desde que desembarquei em Nova York para o meu doutorado.

Há uma organização de militares que se chama “breaking the silence”. Bom, judeus breaking the silence parece ser um pleonasmo, pois o que fazemos o tempo todo é break the silence, do nascimento à morte. Mas talvez às vezes precisem mesmo de break the silence. Hoje pela manhã trabalhei; escrevi para os alunos, para meu irmão que pediu perguntas para o Krugman – que aliás esteve aqui no mês passado. Almocei com dois rapazes que estão no exército, que me contaram coisas banais e não tão banais. Mas não vou falar sobre elas. Talvez anote em algum lugar, mas não vou botar no blog. Talvez porque não tenha pedido permissão, mas acho que não isso não. É que não quero falar sobre isso. Dói ver esses meninos pensando em decisões de vida e morte assim, diante de um prato de ravioli. E aí entendi o tal breaking the silence. É que tem coisas que não se quer falar, mesmo o povo mais matraca do planeta. Sabe aquela tranquilidade da qual falei nos posts anteriores, passear na rua Augusta displicente? Tem um custo, e não é baixo.

Na praia um rock concert patrocinado pelas companhias de celular. Ensurdecedor. Me lembrou do rock que escutei nas discos na Polônia nos anos 90, feito para obliterar os sentidos. E fui para Yaffo, olhar o mar.

Comecei a lembrar certas coisas da viagem de 1987. Um rapaz no kibbutz que me disse querer morar lá por ter segurança econômica, um ruivo que trabalhava na fábrica. Xi, pensei, querer segurança nessa idade, o kibbutz não deve estar atraindo os bright and bravest. Mas fiquei lá uns 10 dias, não lembro o nome, em Rosh Hanicrá? Nada me tocou muito, só a saída do Yad Vashem, mas aí era uma experiência diaspórica, não propriamente israelense. No mais, uma viagem vazia. Tão diferente dessa, em que estou bebendo o país.

Engraçado que não tenho pensado muito nos amigos do Brasil, só no Goldbaum que é leitor fiel, valeu, e num xará dele que é o único judeu que conheço que tem pinta de israelense. Mas me vieram à cabeça meus amigos da New School, quase que pude escutar o Jorge dizendo “Heloissa, this country is fucked up. I mean, the US is fucked up. This country is fucked FUCKED up. A total fuck up.” But Jorge… “Heloissa, shut up.” E aí eu ia ter que concordar, não ia ter jeito. Devíamos fazer uma reunion da New School aqui em Tel Aviv, perto da Europa e dos EUA. Só do Brasil é meio longe pois a ElAl não pode sobrevoar os países árabes, então temos que ir pelo Mediterrâneo, acredita? E pra quê? Esses caras não perceberam que os isralenses não vão embora? Que não adianta ficar fazendo pirraça?

Em 87 minha mãe me deu dinheiro e comprei uma passagem, de graça. 800 e poucos dólares. Aí um dia chego em casa e vejo no bloco de notas do telefone que ela havia ligado para a agência para cotar a passagem de novo. Perguntei por quê. Ela me disse que achou tão barato que ficou com medo que eu tivesse comprado só ida. Dei bronca pela desconfiança. Mas a verdade é que eu tinha vindo para ficar mesmo. O ano tinha sido horrível, eu queria mudar de vida. O único problema é que não amei Israel, então voltei.

Puxa, eu não devia ter contado isso para minha mãe? Que a desconfiança não havia sido infundada? Devia. Mas a vida vai passando, de segredo as coisas passam a desimportantes, e não tocamos mais no assunto. Nem pensamos.

À noite conheci um brasileiro. Do complexo do Alemão, Rio de Janeiro. História diferente, como todas as histórias aqui, cruzamentos, coincidências, escolhas, indecisões, aceitações. “Os judeus querem que eu seja judeu, mas quando eu sou não querem muito.” Mas não dá pra ser apenas israelense, sem ser judeu? Um outro performer disse que tinha tocado no problema central de Israel. Não podia o judaísmo ser apenas uma religião? Pra mim não é, eu disse. Pra mim não é.

Na saída do show aquela sensação hebraica tão forte que quase pedi carona no estacionamento, como a gente faz na hebraica, escuta, você vai pra Higienópolis? Mas tomei um táxi, exausta, exausta de mim.

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