Tel Aviv, dia 5

De volta a Tel Aviv, cidade normal. Onde as senhoras entram nos ônibus e abrem o envelope do exame de laboratório, as meninas lêem as brochuras do Weight Watchers. Alívio estar de volta, uma certa ressaca de ontem. Cachorros correm na praia, meninas adolescentes surfam na praia. Como é que aguentam esse sol?, eu pergunto a um senhor no ônibus, que se ofereceu para dar uma segunda opinião sobre que ônibus eu deveria tomar para chegar em Yaffo, sem ofender a moça para quem eu tinha perguntado originalmente. Pois aqui a segunda opinião não ofende. “Os jovens não percebem o mal que o sol faz. Só a partir de uma certa idade é que começamos a nos dar conta dos danos. Eu estou agora coberto de protetor.”

Comprei duas moedas para o meu irmão, vocês viram que ele pediu no blog. Uma foi mais pra mim, uma moeda fenícia. Não sei por que gosto dos fenícios. Marinheiros. Outra moeda judaica, dos últimos séculos antes da era comum, que pertenceu a um colecionador do começo do século XX, e inspira a moeda de 2 shekelim, que veio aliás junto com a outra. Nosso fascínio pelo antigo. Na antiga cidade de Yaffo, onde também visitei um ateliê iemenita de jóias em prata. Sei que o texto está sem sal, desculpe o leitor. Estava até triste e confusa no final do dia, mas tomei coragem e saí. Aí vi gente vendo o jogo, tomei um táxi para o centro, vi o final do primeiro tempo num bar que acho que era gay e o segundo tempo numa lanchonete com telão na rua, conversei com um senhor que falava bem inglês, tinha morado em Nova York. Inglês, minha segunda língua, amada.

Me ofereceu o apartamento, isso é que é hospitalidade. O resto é conversa. Ou um passeio no fim-de-semana. “Uma aldeia árabe aqui perto?”, perguntei com cara de criança. “Uma aldeia árabe”, ele disse, como quem vai ter que comprar uma bicicleta cara. “Pode ser, vamos sim, a aldeia onde moram meus funcionários,” ele arrematou já mais conformado. Ler o Haaretz aqui é outra experiência. Tudo parece tão vago, tão abstrato e ideológico. Aqui no final do jogo, como no Brasil, aparece a comunidade holandesa comemorando a vitória do time. Os jornalistas bonitos entrevistando os torcedores ensandecidos. A coreografia do dia-a-dia.

Perguntei ao senhor se ele concordava. Pois Tel-Aviv é uma cidade normal, carros, avenidas, gente, calçada, bar, prédio, loja, shopping, aeroporto, mais avenidas, um rio passando no meio, mais bares, lanchonete de falafel, MacDonald’s, mulher de bermuda, ônibus, van, internet sem fio, gato tomando sol. E ele vem me dizer que o país é muito estreito e se bombardearem o aeroporto aí ninguém mais vai vir para Israel. Então minha teoria demoronou.

Tudo bem. Teoria serve para isso. Para ser desmoronada. Implodida. Hoje à noite andando na rua pensei no Simmel. O único desses todos que penso como pessoa, como homem. O único teórico que realmente ficou na minha cabeça, acho. Queria convidá-lo para andar pelas ruas frescas da noite de Tel-Aviv, perguntar o que ele acharia. Grupos, identidades, o que ele diria?

Meu palpite, assim à meia-noite, outra hora elaboro, é que os americanos deviam ajudar. Mas não ajudar dando dinheiro ou botando pressões, pois isso eles já fazem. Ou participando das micro negociações, a água daqui, a estrada de lá. Deviam ajudar no nation building. Deviam trazer o know-how jurídico deles, e pensar a questão da cidadania. Região A, B e C não funciona. Como incorporar plenamente a todos? Aos trabalhadores asiáticos, aos drusos que se sentem discrimidados, aos árabes israelenses e quem sabe aos árabes da região? Aos que queiram ser cidadãos desse país. Aos que queiram votar, servir exército e tudo o mais.

Claro que é fácil falar. Com o Shalit sequestrado, a ameaça iraniana, como pensar em inclusão? Mas me diga você, a inclusão nos Estados Unidos não tinha também seus desafios? Os excluídos queriam a inclusão, isso faz toda a diferença. Mas será que se você não oferecesse a cidadania plena para quem falasse hebraico e jurasse à bandeira, ou seja, tirasse a questão da cidadania do caráter étnico e territorial e botasse no plano ideológico e cultural, não torceria todo o quadro? Israel, um exemplo em tantas áreas, poderia acabar sendo um exemplo também na criação de uma cidadania para um mundo global, onde as escolhas pessoais tem valor, mais que a raça, esse acidente da natureza, ou o lugar de nascimento, esse acidente da história.

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5 respostas em “Tel Aviv, dia 5

  1. Meu modelo é isso aqui: http://www.nytimes.com/2010/06/28/opinion/28feldman.html?_r=1&scp=1&sq=education%20higher%20wasp%20elite&st=cse. Se os Wasp fizeram isso, por que não os judeus e árabes israelenses?

    Não falo de uma cidadania imediata, mas de um processo pelo qual você adquire uma cidadania, assina um contrato com um país, aceita os pressupostos básicos que regem o país, entre os quais o de receber judeus. Mas esse não é o único pressuposto do país, certo? As pessoas vem aqui para trabalhar, como vão para a Europa, para os EUA, para o Brasil. Acho que o problema não é o caráter do Estado, mas combinar com os russos. Além disso, o caráter étnico continua, como continua para os americanos, brasileiros, não é apenas territorial. Se você nascer na Índia de pais brasileiros você é brasileiro. Se seu avô é italiano você é italiano.

    Enfim, modestamente, essa é minha contribuição. Todo mundo dá palpite, por que eu não? E thanks for reading it!

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