Os desafios do diálogo

Saiu nesse mês uma matéria muito bacana na revista Vida Simples, do Rafael Toron, examinando onde foi parar a conversa nos dias de hoje. As fotos são de Nati Canto e dialogam super bem com o texto. Tem um pequeno trecho meu, no final da matéria, sobre meios de comunicação e diálogo. O texto mais amplo eu copio aqui embaixo:

Os desafios do diálogo

A cada vez que um novo meio de comunicação entra em nosso cotidiano temos que fazer uma porção de ajustes. Claro que há os grandes ajustes: as cidades são planejadas de modo diferente, a produção e o comércio se modificam, a educação se transforma. Mas também há os pequenos ajustes do cotidiano. Lembro de um dia em que minha sobrinha, no meio da sala, lia um livro. Todos que passavam por ela perguntavam algo ou comentavam alguma coisa. Ela respondia e voltava ao livro. A uma certa altura, ela se encheu: “Mas será que nessa casa não dá pra ler?” Bom, nós tivemos que aceitar que ela já era parte da cultura do livro, não era mais uma criança pequena. Se estivesse com um livro aberto no colo, deveríamos pedir licença para interpelá-la. Por outro lado, pelo fato de ela poder ler, há muitas coisas que posso conversar com ela que de outro modo não poderia. Então o livro é uma barreira entre nós, mas também um elo. Agora ela está estudando a vida da Clarice Lispector, por exemplo. Vamos falar muito disso!

O que acontece com o livro, que é o meio de comunicação ainda mais precioso que temos, pela quantidade de informação que contém e por seu incrível alcance e durabilidade, acontece também com as outras mídias. Se eu vejo a novela à noite estou deixando de conversar com meus familiares ou sair com os amigos, é verdade. Mas veja isso: nas ruas de Havana, numa ida à ilha que fiz em 2001, as pessoas me paravam na rua para perguntar as horas – lá muita gente não tem relógio. Quando viam que eu era brasileira já me perguntavam sem cerimônia: “quem matou o Barão?”, se referindo à novela de Gilberto Braga com Malu Mader e Reginaldo Farias. Então havia um reconhecimento entre perfeitos estranhos, através desses dois meios: o relógio de pulso e a novela de televisão. São dois meios que tem a cara do século XX, não sei quanta vida ainda tem, mas suas funções serão incorporadas nos novos meios que virão.

Os meios de comunicação podem mudar o modo com que nós nos falamos, mas não vamos deixar de falar por causa deles. A comunicação é algo muito anterior aos meios de comunicação. Quem não conversa fica doente, falar é uma necessidade orgânica dos seres humanos. Cada cultura dá uma forma distinta a essa prática, e também acaba incorporando os novos meios sem se abalar tanto assim. Hoje em São Paulo, que tem seu lado anônimo e agressivo como toda cidade grande, você ainda conversa na feira, no ônibus, na fila do banco, nas lojas, na entrada do cinema. Aliás, falando em feira, a cidade devia prestigiar e não restringir essa forma de comércio que humaniza os bairros, dando oportunidade para que os vizinhos se reencontrem a cada semana entre mamões e chuchus! A cultura da cidade se impõe, e a cultura de São Paulo é aberta, interessada. Acho que para não conversar em São Paulo você precisa andar com a cara muito fechada, pois há sempre gente querendo bater papo. Estou pesquisando o uso que os jovens fazem dos meios de comunicação, e observei muitas vezes os jovens tirando os fones do ouvido educadamente para conversar com alguém que lhes dirigia a palavra. Ao menos nós brasileiros botamos esses aparelhos todos no seu lugar: são acessórios à comunicação, mas não empecilhos.

Talvez os novos meios prometam uma escuta e uma comunicação que não têm mesmo condições de suprir, e daí uma certa frustração. Se você liga a televisão e acha que o “Globo e você – tudo a ver” é pra valer, isso é um problema. Porque encontrar gente com quem temos tudo a ver é uma arte, não é só ligar a televisão. Se você acredita que a margarina vai te ajudar a ter uma família feliz também vai quebrar a cara. Então é preciso separar o que é marketing do que é o conteúdo e por fim do que são os meios de comunicação em si, com suas possibilidades tecnológicas. O Orkut não vai te ampliar as amizades a não ser que você realmente se dedique a esses novos amigos virtuais. É como andar na rua: você não espera virar amigo de todo mundo em quem esbarra, mas alguns daqueles desconhecidos podem virar seus amigos do peito.

Nós vamos aos poucos aprendendo qual o papel de cada novo meio. Quando o celular entrou no nosso cotidiano, as pessoas interrompiam a conversa para atender o telefone como se tivessem escutado uma sirene de ambulância. Hoje as pessoas já dão uma olhada discreta no visor e deixam cair na caixa postal a ligação que não é urgente. Até que esse aprendizado ocorra, há, sim, um grande desafio. Pois como é que eu vou lidar com essa informação toda? Vou participar de tudo? Vou fingir que não é comigo? Vou me dedicar afetivamente a alguém que nunca vi? Vou levar na brincadeira já que nada é real? Não é fácil mesmo. Estamos aprendendo a selecionar o que é e o que não é. O que tem sentido e o que não tem. Nesse processo, há um desencanto com os novos meios: o site suicidemachine.org, por exemplo, propõe te ajudar no seu suicídio virtual, para você passar a usar o seu tempo com a família e os verdadeiros amigos. Vai no mesmo sentido o relato de Hal Niedzviecki no New York Times: o crítico cultural conta que convidou seus 700 amigos virtuais para uma festa mas só uma mulher apareceu que, constrangida, foi logo embora. Essas são reações à fé excessiva nos novos meios como veículos de inserção social. Mas, assim como o entusiasmo inicial, elas logo passam e tudo fica banal como um telefone de disco, um livro, um envelope selado.

E aí, o que conta não é mais a tecnologia. É o caráter ético do diálogo, o nosso interesse no outro: seja na sua vida, quando o escutamos, ou na sua opinião, quando falamos de nós. Aí o que conta são as pessoas. Parafraseando o Caetano, cada um sabe a dor e a delícia de conversar pra valer.

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