Contas prestadas

Hoje recebi a declaração de rendimentos de minha estada nos EUA. Então depois de entregar relatórios e artigos a essa estada referentes, nada mais finalizante nos ciclos humanos modernos que uma declaração de rendimentos entregue pelos correios com o código de endereçamento postal correto. Segunda nós comemoramos o Pessach, que tem origens em rituais pastoris e agrários condensados em uma festa cheia de significados históricos: http://www.jewishencyclopedia.com/view.jsp?artid=98&letter=P#2. Talvez estivesse na hora de incluir a entrega do imposto de renda no ritual de limpar a casa dos pães fermentados…

Bom, o ano de 2009 acabou, e agora só falta prestar essas últimas contas e aí acabou mesmo. Mas falo desse ano, dos primeiros frutos. E aqui vão. Já contei que gosto dos colegas. Saímos às quartas para comer pizza, eles tiram sarro da minha cara pois pedi um “vinho da casa”, um vinho doce e farto que adorei mas não tinha nada de sofisticado. Então tenho a sensação muito forte de estar entre amigos. Cada dia uma conversa distinta. Um colega narra a viagem à Índia, feita de última hora. Outro dia um doutorando fala dos poetas portugueses que influenciaram Pessoa. Eu me surpreendo pois não me lembro de ter tido um ambiente de trabalho assim. Eu gostava da Folha, mas na verdade ninguém tinha tempo de falar e você só imagina que grandes conversas poderia ter com aquelas pessoas assoberbadas e interessantes.

Nessa semana atendi alunos, um atrás do outro. Um confessou: quase perdi seu curso. Como se fosse algo precioso. É que a seção de alunos o divulgou como se guardasse um segredo de Estado. Foi, parece, pelo boca a boca dos incautos que se matricularam por acaso que houve uma certa divulgação. Quer estudar Hermeto. Depois orientandos e possíveis orientandos. Um deles veio achando que teria que recolher uns dados para o meu projeto. Talvez seja isso mesmo que uma bolsa peça. Mas eu queria que ele fizesse o projeto dele. Vamos ver. E aí veio um aluno do semestre passado, com quem eu tinha trocado umas farpas, me perguntar o que eu sabia de Rawls. Fiquei na defensiva, claro, gato escaldado. E além disso conheço Rawls pouco. “Só tenha na cabeça que ele está dialogando com conservadores americanos, ou seja, gente avessa ao ativismo estatal. Para nós parece tudo muito óbvio, pra que gastar latim dizendo que deve haver compensações? Mas lá faz sentido, veja o debate sobre a saúde. O interlocutor dele não existe no Brasil.”

Parece que ajudou. Eles estavam se perdendo nos detalhes do argumento sem ver a floresta. Meus estudos de Rawls ajudaram alguém? Impressionante. E assim começa esse ano.

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