A Hagadá da Helô

Era uma vez um povo muito antigo, que por causa de suas leis e costumes se achava o rei da cocada. Só tinham uma dúvida: será que eram mesmo? E se eram, por que tantas perseguições? Pois tinham essa mania, de mal chegarem num lugar para armarem a tenda e lá iam eles sendo perseguidos.

Uma vez, há muito tempo, aconteceu de saírem de um lugar por livre e espontânea vontade. Foi há muito tempo mesmo. Saíram assim todos juntos, como um povo. O rei do lugar gritava a plenos pulmões, enquanto ia ao seu alcanço: “Não vão, não saiam. E os meus prédios, quem vai construir? E meus doentes, quem vai curar?” Mas o líder do antigo povo estava inflexível: “Virem-se. Já construímos e curamos, agora nos vamos.” O rei se enfurecia, correndo e berrando: “Temos um contrato! O contrato, o contrato. Vocês têm que ficar!” O líder voltava-se e retrucava, como se advogado fosse: “O contrato rompemos mesmo. Mas pagamos a multa e assim nos vamos.” O rei se exasperava, suado, com sua corte correndo atrás. Era seu reino que estava em jogo. O líder não queria saber: “Componha-se!”, ele dizia, como uma avó ranheta. E foram-se todos mesmo.

Isso foi há muito tempo mesmo. Mas a história era comemorada pelo antiqüíssimo povo até os dias de hoje. Pois era bom lembrar da cara do rei desacorçoado, quando tantas outras vezes foram expulsos com crueldade. E no dia de celebração, esse povo antigo se reunia em suas casas, mais modestas ou mais abastadas, para lembrar a saída gloriosa e esquecer um pouco das fugas mais tristes, algumas bem recentes em suas memórias. Era uma boa festa. As crianças corriam pela casa gritando “O contrato, o contrato” enquanto as mulheres faziam bolinhos de peixe mal-cheirosos. Havia uma grande alegria.

E foi assim por muitos e muitos séculos.

Em dias muito recentes, quando grandes reinos encontravam em antigos servos seus novos líderes, uma ovelha desgarrada – mas fiel – desse nobre povo encontrou-se em terra distante e fria. E úmida. Ela foi celebrar na casa de estranhos, assim por costume, a saída espontânea de seu povo do reino que, de fato, muito se ressentiu desde então da ausência de grandes arquitetos, médicos e advogados. Mas a moça não tinha pena do rei. Tinha é dela mesma, e no meio das celebrações, quando era a sua vez de recontar uma parte da história de seu povo, desatou a chorar como um bezerro na frente de todos. Ao invés de pularem sua vez, educadamente, todos a encorajavam a ler, e ela teve vontade de estrangular um ou dois. Mas parar de chorar não conseguia. Pensava em quão longe de casa estava, e pensava em quão longe dos seus estava. Era primavera, mas isso lá era primavera? Sentia falta do cheiro de maresia e não parava de chorar.

Ao final, passaram a sua vez e as comemorações seguiram seu rumo, com a moça absorta e mantendo conversas superficiais como geralmente acontece nessas situações. Talvez se tivesse uma lambreta sairia dali, mas não tinha e o jeito era esperar que tudo acabasse do melhor modo possível. Um casal abria um novo restaurante, um senhor começava a produção de um protetor de lábios a base de mel. A moça escutava triste. O que faço aqui? Toda a sua vida parecia uma série de tropeços sem graça, ela que vinha de um povo repleto de histórias incríveis. Por dentro, chorava.

Até que apareceu um outro membro de seu povo querido, vindo de estepes mais geladas ainda, se desculpando pelo atraso e sentando perto da moça. Que, dando uma risada de uma de suas piadas, tossiu uma tosse horrível.

“Que tosse horrível”, disse ele.

“Está tão ruim assim?”, ela quis saber.

“Está sim”, respondeu ele, do modo carinhoso com que os membros daquele povo se tratavam. “Você tem asma?”

“Não”, ela disse, um pouco assustada, como se um exército inteiro naquele momento marchasse em botas reluzentes para dar cabo dela.

“Então depois do jantar vamos lá em casa e eu te examino”, ele determinou.

Isso fez seu jantar mais tolerável. Ia ser examinada por um doutor das doenças e das curas, e nisso os do seu povo eram bons pra valer. Ia ter um diagnóstico. Ia saber o que ia errado com ela e poder corrigir. As batatas ficaram mais tragáveis e o mesmo ocorreu com as conversas. Havia esperança.

Depois do jantar, conforme combinado, ele a examinou e disse sem hesitar: “Faringite. Sem antibiótico pode curar, pode se arrastar semanas. Então toma a receita. No pulmão não tem infecção. Se tiver uma minúscula inflamação pode ser até da gripe, não é asma.”

Ela foi zonza para casa. Feliz?

No dia seguinte comprou o antibiótico, e antes do almoço já se sentia disposta e animada. Então era isso, era uma infecção. A febrinha abate mas a gente nem percebe, vai murchando. À tarde embarcou tranqüila num aeroplano que depois de muitas escalas finalmente pousou numa luminosa cidade dos mares do oeste.

Estava livre. Se tinha sido expulsa ou deixado o rei falando sozinho, nunca saberia. Mas estava livre.

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