São Paulos cruzadas

Pois é, continuo arrumando a casa e pensando sobre SP.

Outro dia fui comer na esquina e puxei papo com a dona do restaurante. Ela foi me perguntando se eu conhecia as pessoas da rua. A Fulana? A Cicrana? A Beltrana?

Não, eu não conhecia ninguém. Só os porteiros do meu prédio, o dono da quitanda que fechou, o maluco da rua do Metrô, o dálmata solitário da mesma rua, e a sorveteria que finalmente deu à esquina um comércio bem-sucedido.

Nem Fulana, nem Cicrana e nem Beltrana, disse envergonhada como má aluna de Jane Jacobs. “Na cobertura a gente fica meio isolado”, expliquei.

Esqueci a história, que aliás nem é muito relevante. Aí na semana passada fui pegar meus cartões de visita na gráfica, super caprichados, que mandei fazer só me comunicando por telefone ou email. Cheguei na rua mas nada de gráfica. Eu me lembrava que era mais ou menos na altura do 80, andei dois quarteirões e cadê a gráfica?

Fui perguntando para uma das donas da rua, bem estilo Jacobs, só faltava o sotaque. Gráfica aqui? Não tem não. E foi listando todo o comércio da rua. Depois ela ainda foi perguntando no vidraceiro, na papelaria, se tinha gráfica. Não tinha. “Moro aqui há 30 anos, gráfica nunca teve.” Essas Jane Jacobs são mais fofas nos livros, na vida real são um pouco irritantes.

Voltei para o carro, abri o computador. A rua estava certa. Era pelos 80 mesmo. Toquei a campainha, conversei com o designer muito simpático, e na saída perguntei: Mas escuta, nem uma placa? É medo de assalto? É muita fiscalização, ele disse. A gente paga impostos, mas se for fazer tudo direitinho fechamos. Ali em cima tem uma produtora de vídeo, ele ainda explicou, apontando para o outro quarteirão.

Alguém devia ir lá na prefeitura e explicar o texto da Jacobs, pra ficar fácil de legalizar. Enquanto isso não acontece a gente vai imaginando São Paulos cruzadas, ou melhor, superpostas sem se cruzar. Eu sem conhecer as Beltranas, as Jacobs do bairro sem saber onde ficam as gráficas.

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Uma resposta em “São Paulos cruzadas

  1. Ou então vira tudo virtual. A Real Imprensa Imaginária do Boupinel acabou de firmar um acordo com a Amazon para publicar “O Gigante Burocrator” no Kindle. Eles dizem que em 48 horas dão a resposta se deu certo. Só faltava essa.

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