Washington, D.C.

Nunca tinha estado em Washington. Desci na estação de trem e tive uma sensação parecida com a que tive chegando no aeroporto de Berlim. Uma surpresa por gostar do lugar. Washington para mim significava poder e burocracia, e Berlim nem vou falar o que significava. Mas chegando em Berlim naquele aeroporto coloridinho me dei conta que a viagem seria divertida. E chegando em Washington vi que além de poder havia história, e além de burocracia gente.

Estava chovendo e tomei um daqueles tours que, como diz meu irmão, é que nem vacina anti-tetânica: a cada dez anos você precisa tomar um. Dura dez anos, esquece o quanto é ruim, e aí tem que tomar outro. Pelas janelas embaçadas não vi nada, e depois tomei o metrô para a casa de um amigo da faculdade com quem eu passaria o fim-de-semana.

O dia seguinte amanheceu ensolarado. Washington tem um monte de museus gratuitos, parte de um sistema público que atrai turistas do mundo inteiro. Fui a uma pequena casa no bairro antigo da cidade, que tinha sido residência do primeiro contador do país. O preço era 5 dólares. Para chegar no lugar foi fácil, o metrô lá é tão simples. O bairro tem casas antigas, pequenas para os padrões atuais, restaurantes finos, ruas tranqüilas e até onde eu puder vou usar trema.

Me apresentei às mulheres que cuidavam do museu. Uma delas me deu um tour completo, me mostrou os móveis, as roupas, os documentos do antigo morador ou da época. “Fazia muito calor naquela época, havia mosquitos, Washington era um pântano”, ela me disse, e depois mostrou como a arquitetura da casa facilitava a ventilação. Mas disse com classe, como se fizesse ela mesma parte daquela história, daquele país, daquela cidade.

Olha, eu confessei, esse é o primeiro museu que visito na cidade. Elas se olharam, aquilo era estranho. Com todo o Smithsonian, eu ir parar lá na casa do Joseph Nourse?! Perguntaram por quê. Bom, eu falei constrangida, é que eu queria que alguém me dissesse qual era a alma da cidade. E num grande museu você não tem isso. Queria ver objetos, queria entrar numa casa. Não disse que queria escutar uma pessoa.

Mas tem coisas que a gente não fala e as pessoas escutam. Então a mulher me convidou para sentar e ficamos falando dos Estados Unidos, de Washington, do Rust Belt e de outros tantos lugares. Senti nela um orgulho de ser parte daquilo tudo, um orgulho diferente do que eu estava acostumada a ver nos americanos com seus achievements. Era um orgulho aristocrático. Ela não tinha feito nada; ela era. Sua segurança e graça vinham de estar lá, naquela casa antiga, onde morou o primeiro tesoureiro do país. Ele sim, um inglês, tinha feito coisas; ela apenas nos lembrava disso.

Então trocamos emails. Ela escreveu: os nossos caminhos ainda se cruzam. Estive mais uma vez em Washington, para uma conferência. Passei pela casa por acaso, andando no bairro com um outro amigo. A casa é realmente bonita, sólida, discreta. Mas não entrei. Nesses meses no Brasil já cumpri com quase todos os rituais e tarefas a que me tinha proposto naqueles últimos meses nos Estados Unidos. Falta escrever para a mulher de Georgetown, não sei exatamente para dizer o quê. Mas falta.

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