O pum é fedorento

Então estávamos no começo do verão americano em Boston, eu entre Pittsburgh e São Paulo, e as meninas na cidade que é delas, onde aprenderam a ler a escrever. Como sempre, fizemos teatrinho. Nossos teatros são variados. Tem um que a gente faz há anos, o teatro dos pistaches. Cada vez que a gente se encontra cria um episódio diferente, mas são sempre dois pistaches e uma mulher meio pirada. Eu interpreto a pirada. Elas, os pistaches.

Depois tem as apresentações de rua. Ir a um museu e ficar brincando com as obras de arte, ir a um restaurante e fazer um monte de bagunça. E a uma certa altura perceber que há platéia, que torcem, que riem, quase aplaudem e pedem autógrafos.

E além disso os exercícios isolados. Tipo brincadeiras de linguagem, de expressão. Meio mímicas. Desta vez, eu pedi o seguinte: cada uma tinha que pensar numa emoção e buscar criar nas outras essa emoção, através de uma pequena apresentação. A mais nova foi ótima. Ela soltava uns gritos de tanto em tanto tempo, e fazia umas caras estranhas, e fomos nos enchendo. Pára, isso está ficando irritante. Qual a emoção? O que você quer?, perguntávamos. E ele continuava a coisa. Até que desistimos. Qual a emoção, afinal? Irritação, ela disse. Olhamos uma para a cara da outra e rimos. Estava ali, e não vimos. Ficamos realmente irritadas.

Aí chegou a minha vez. Eu estava querendo exorcizar tudo aquilo pelo que tinha passado. Queria que cuidassem de mim. Então queria criar compaixão. Minha personagem era velha, entrava mancando na sala, encurvada, e se queixando. Mas não me dei bem, pois as duas meninas se dobravam de rir. Compaixão nada, meu personagem era é muito engraçado. Quanto mais eu exagerava, pior. “A vida é triste. Andar dói.” E elas rindo. Os cantos da minha boca apontados para baixo, e elas vendo um palhaço de circo. “O pum é fedorento”, eu continuei. Aí elas realmente riram. Riram de não se agüentar. E eu fiquei sem minha compaixão. Repeti a frase algumas vezes, pois já que era engraçado, que fosse. A gente vive sem compaixão, mas sem risada não.

Depois nos acalmamos. Eu perguntei à mais velha: tá bom, não consegui inspirar compaixão. Mas me diga então o que há de tão maravilhoso em reclamar que o pum é fedorento?

Ela me respondeu, como sempre sensata: Mas como é que pode reclamar que o pum é fedorento? O pum é o que é. Isso é que é engraçado. Não adianta reclamar. Então essa foi a lição que aprendi, naquele teatro.

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