Entre as Mulheres

Acordei pensando nas amigas da minha avó, que tinham todas nome e sobrenome. A Madame Reymonde, a Senhora Moscati (cujo filho acaba de voltar dos Estados Unidos), a Falecida Ada, a Ana do Arão, a Ana Tabacof, e assim por diante, a Senhora O Cunha. A Falecida Ada, com quem minha avó fez a Europa, eu nunca conheci, obviamente. As outras também não, com exceção da Madame Reymonde e da Ana do Arão, um tia. Eram amigas da Ofidas, uma associação beneficiente, muitas delas. A Genny não tinha adjetivo algum; dela minha avó falava com carinho, sem o manto das obrigações sociais ou familiares, a Genny. Eu a conheci magrinha e pequena, num apartamento também pequeno e arrumado, era mesmo doce atrás de seus óculos anos 60.

Mas não são só coisas doces que acontecem entre as mulheres. A Madame Reymonde tinha duas filhas, com nomes parecidos com as das princesas de Mônaco. Minha avó comparava as filhas da Madame Reymonde com minha mãe, e minha mãe, segundo ela, saia perdendo. Se achava feia e desengonçada. Os cabelos lisos quando eram para ser encaracolados ou vice-versa. Inteligente quando era para ser burra, ou vice-versa. Tem certas mães que te fazem se achar errada mesmo. E aí minha mãe cresceu e ficou bonita e inteligente, ou bonita e burra, o que não deixa de ser uma qualidade nos anos 50, e roubou o namorada de uma das princesas. Algo assim, não tenho quem me confirme a história, mas aos 15 anos viu a princesa com um cara, que na época se dizia rapaz, e aos 18 o catou. Ou aos 12 viu e aos 15 o catou, vai saber.

Assim de catar o namorado da outra nunca fiz, nunca me senti no direito. Cato o que anda solto por aí, nem sempre os melhores. Mas acordei pensando nisso. Precisa estar imune ao que as mulheres vão dizer, para ter essa liberdade de catar o namorado da outra. E nunca estive. Mas outro dia saí de shortinho no metrô, shortinho de shopping muito curto e bonitinho, e duas mulheres feias e vestidas me olharam feio. Eu disse mentalmente uns impropérios, pois vi que era inveja das pernas compridas. Disse que as pernas eram da natação mas que no caso delas não bastaria. E continuei a viagem sorrindo.

Então para isso valeu, ter dado aulas em escola de mulheres. Para isso valeu, e na falta de sentimento melhor fico agradecida. Pois tomei um ódio do gênero que deus me perdoe.

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