O time do povão

Maravilhada com o jogo, fui discutir com os alunos, numa turma muito dedicada onde há um marxista. Mas um marxista como hoje em dia só há em Marília, não se encontra mais em outras partes do mundo. Em minha fase zen, não o confronto quando fala em ideologias burguesas, pois aprendi que a gente na sala de aula tem que mostrar novos horizontes, e não debater política.

Falei dos vendedores ambulantes que mais pareciam mordomos, nos mostrando o lugar onde sentar e até o amigo perdido na multidão. Falei do policial que me recebeu como se fosse também um cavaleiro da rainha para a festa da coroação, muito diferente da expectativa que eu tinha, de ser tratada como gado. Não contei que fiquei desapontada com o policial não me revistar, mas essas coisas na sala de aula a gente não conta.

Falei da festa que é um jogo, mas também dos palavrões ditos por todos contra todos, e que naquele clima de festa pareciam não ferir, não incomodar ninguém. Recomendei às meninas que fossem ver jogos de futebol, pois aquela sociabilidade é a sociabilidade de verdade dos brasileiros, que penetra na sala de aula e deixa os pedagogos aflitos, então é bom entendê-la.

Os alunos me contaram que quando joga o Corinthians quem não é corinthiano sempre torce contra, independentemente do adversário. Eu fiquei chocada, é verdade isso? Dizem que no interior ao menos é assim. Mas por que, eu perguntei, é assim? Inveja não será, pois o time tem suas fases ruins. Havíamos lido Simmel, que estuda as formas sociais, os conflitos independentemente de seus conteúdos. Então aí havia um exemplo concreto onde eu poderia empregar os conceitos do autor, mostrando como a sociologia pode ser uma ciência viva.

Foram tentando explicações. Um disse: por isso mesmo, a torcida é unida, e cresce com as dificuldades. Aí está um motivo de acirramento da rivalidade, um adversário que cresce com a adversidade dá raiva mesmo. Impossível de derrotar. O marxista soltou: Corinthians é um time do povão, da massa, então eles têm raiva mesmo.

As alunas da frente olharam para mim. Será que agora eu iria contestar? Aquilo era o fim da fase zen? “Ele tem razão”, eu disse. Acho que é isso mesmo. O time do povão.

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