Moisés e o Monotransporte

Desci do ônibus pela frente me despedindo do motorista. Eu havia pago a passagem e pedido para o cobrador virar a catraca pois queria continuar o papo, que estava quente.

Tchau, Moisés. Eu sou a Heloisa.

Ele sorriu e perguntou: “Você é escritora?”

Sou, respondi, sem hesitar.

“Tem cara mesmo.”

Mas o foco da conversa não tinha sido eu não. Tinha sido o trânsito de S. Paulo. Moisés, que faz a linha Sacomã-Pompéia, inconformado com o treinamento que tinham lhe dado hoje: pare para as bicicletas, nem buzine. Se ele se assustar e cair a responsabilidade é sua. A multa? “Não vai para o dono da empresa”, o Moisés falou. Então era só isso o que faltava, andar atrás das bicicletas. “Eu ganho por hora, mas e o passageiro que tem hora marcada no HC, o que eu digo?” Moisés falou o número de pessoas que transporta por dia. “E o Lula achando que o Brasil depende da indústria automobilística e do petróleo, não é assim.” Mas é seu conterrâneo, não, Moisés? “Que nada, sou cearence.”

Disse com orgulho, era cearence. Fiquei com vontade de ir para lá, ir para um lugar onde as pessoas tem orgulho de vir. Em São Paulo está todo mundo querendo ser americano, havia me dito um rapaz no dia anterior. Não discordei.

Mas o melhor da conversa não foi a política. Foi a técnica. “E por que não fazem um corredor de ônibus? Ah, porque a Paulista vai perder seu charme. Sei, e esses carros todos aí são um charme?” Aí é que entrou a menção ao Lula e a sua visão retrógrada do progresso. São Bernardo anos 70.

Eu acho mesmo que perde o charme, Moisés, eu disse. Mas a faixa esclusiva para ciclista que você falou eu gostei. Podia ser a primeira, a da direita. Depois a dos ônibus, protegendo os pedestres, e depois duas para os carros, como você falou.

Então concordamos, estava resolvido. Por mim, indo até a Lapa. “Onde houver asfalto tem que ter faixa para bicicleta”, ele emendou. Radical. “Quando o cara no carro vir que o ônibus anda e ele não, vai de bicicleta ou toma o ônibus.”

“Mas você está achando que uma bicicleta ou outra vai te roubar o dia, não é assim. Que custa ficar atrás da bicicleta?” Aí o Moisés revelou: “Eu conheço todos os lados. Sou ciclista, tenho moto, tenho carro e dirijo ônibus.”

O pedestre é que sofre mais, eu emendei. “O pedestre é o mais desprotegido, e o mais imprudente”, ele me explicou. Deve ver coisas no trânsito de São Paulo.

E agora a lição: “Esses problemas todos de São Paulo, eu estou na rua e vejo. São fáceis de resolver. Mas quem está lá? Quem passa num desses concursos, não sabe nada, nunca tomou um ônibus na vida e vai lá decidir como a gente deve fazer as coisas.”

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