Cachorro entra em sala de aula em universidade do interior

Um cachorro preto, vira-lata, entrou na sala de aula de uma turma de administração pública, em torno das 21:20h, quando os alunos ainda se acomodavam para uma aula de psicologia social.

Não tenho receio nenhum que essa notícia vá parar nos jornais, então confidencio-a a você com tranquilidade. Para mim parece importante, mas para os leitores dos grandes jornais brasileiros não será; às vezes acontece o contrário, e aí é preciso ter cuidado.

Os alunos quando entram na sala pensam se querem ficar perto do professor ou da porta, para o caso de a aula tornar-se insuportável; se querem ficar com os amigos e dar risada, ou com as meninas e fingir que precisam do caderno emprestado. O cachorro também tinha suas dúvidas e seus critérios, e olhou para um lado e outro, esticando o pescoço, enquanto descia as escadas da sala estilo anfiteatro.

Eu disse: “Olha lá, aluno novo!” Os alunos riram, “Transferiu da Sociais, viu que não tinha futuro.” Eu ri.

Na aula anterior discuti como analisar entrevistas, o que destacar nelas, que ausências notar, onde elas expandem nossa compreensão das relações sociais. As questões dos alunos eram boas, sobre a isenção do entrevistado, sobre a indução das perguntas e coisa e tal. Nessa aula eu tinha me prometido não descontar nos alunos minhas frustrações com a escola; quem mais se prejudicava com isso era eu. Afinal, gosto de dar aulas, gosto de ensinar e se eu detonar esse espaço da sala de aula fico só com a riquíssima vida intelectual de minha universidade e morro de inanição.

Disse que não é preciso ser isento, nem possível. Mas que o distanciamento e o olhar objetivo devem ser buscados, citei Simmel e seu estrangeiro. Disse que às vezes nem isso é possível, e mencionei que naquele dia mesmo meu olhar objetivo não funcionou. Conta, professora. Não posso. Conta sim, conta o milagre mas não o santo. Contei, analisamos a situação e as causas de minha falta de objetividade. Rimos de tudo, de mim, da situação. No final, agradeci. E voltei à aula.

O cachorro, a minha confidência, estávamos ficando amigos, a classe e eu. Na semana seguinte dividi a classe em dois grupos, uns que defenderiam a tese de que existem razões legítimas para a ação americana em outros países, outros que diriam que o poder americano era só o que estava em jogo. Pedi que alguém moderasse o debate e entrei no grupo minoritário dos legitimistas.

“Bom, massa disforme de maria-vai-com-as-outras, comecem”, eu disse, quebrando o gelo. O outro grupo pediu ao moderador a minha expulsão do debate e começamos. Eu tinha dúvidas se os parceiros do meu grupo estavam mesmo comigo ou se estavam lá por ironia, mas não, precisa ver que argumentos legais. Temas: tolerância cultural, consumismo, leis internacionais, a definição de legitimidade, relativismo de valores. Debate bom, com briga e tudo. Me alonguei numa intervenção, e escutei essa: “Democracia, democracia, no final das contas é a sua voz da autoridade que conta.” E também essa, dirigida a um dos legitimistas: “A posição da professora ficou clara, as intervenções não tem razão econômica, são apenas voltadas à estabilidade mundial. Quero saber sua opinião, Portuga, você concorda com isso?” Pergunta feita com fel. O Portuga falou bem, disse que a professora tinha apenas ressaltado um aspecto, mas claro que questões econômicas também entram na equação. Trabalho de equipe.

Depois o pessoal do fundão que chegou atrasado queria participar, e o moderador os boicotava. Os dois grupos que já tinham, através do conflito, criado uma relação, se uniram: periferia, não vem que não tem. Olha aí o terceiro mundo querendo voz.

Enfim, tenho me divertido com esses meninos. Terminamos o debate às 22:30, com o ritual da chamada. Até às 23:00 os alunos me perguntavam: as perguntas que elaboramos para o trabalho estão boas? Falo com gente que fez intercâmbio ou não? Se eu quiser estudar fora como faço? E se o pessoal no Japão não responder o questionário? Etc., etc. De onde vinha – essa é a questão – a autoridade? Não a autoridade da chamada, das notas, mas aquela que os deixa até as onze da noite me fazendo perguntas, como se eu soubesse o que é melhor.

De onde vinha a deferência por meu conhecimento e experiência?, que é algo que estranhamente não é cultivado na universidade. É possível que ela até se manifestasse mais depois das brincadeiras, das confidências, de me verem disputando um debate de igual para igual. Mas ela não poderia vir disso. Acho que com essa turma acertei em dar uma aula inteira sobre minhas pesquisas, como faço entrevistas, como redijo meus textos. Se eu não tivesse Lattes, como descobri que tem gente que não tem, aí não teria essa aula. E talvez não tivesse a que ter deferência… E o respeito seria algo vindo da tradição apenas, do que os pais disseram que se deveria ter pelos mestres, sem vínculo com a experiência da sala de aula.

Sala de aula que é – como acredita essa boa aluna da sociologia americana – construída a cada encontro, a cada texto, a cada discussão. A deferência é algo que o professor tem que arrancar dos alunos a cada semana, como um feirante arranca da dona-de-casa a cada semana suas notas de dez. Se no final do curso os alunos não te perguntarem o que fazer da vida – não que você saiba, não que você não tenha a obrigação de dizer que não sabe – me desculpe mas talvez você seja melhor feirante que mestre.

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3 respostas em “Cachorro entra em sala de aula em universidade do interior

  1. Adorei a entrada do cachorro e o “estatamos ficando amigos”!!Mas queria entender pq gastar tanto tempo de vidas, de aulas, de esforços intelectuais e materiais, para defender e buscar uma legitimidade aos EUA??Estabilidade mundial?? Isso é piada?Beijos Heloisa.

  2. Oi Sergio,que bom que voce gostou. legitimidade ou não legitimidade, estou ensinando o modo americano de debater: livre, combativo, de igual para igual. claro, com o humor brasileiro. sobre a politica em si, cada um que forme sua ideia…Helo

  3. quando era estudante de jornalismo me debati à beça com essa historia de objetividade. no final cheguei em uma ou outra resposta que pra mim servem ate’ hoje, embora receio que ela seja mal compreendida.primeiro: essa historia de que basta a sinceridade (ou honestidade, autenticidade) do jornalista e’ ingenuidade.segundo: que so’ somos mais objetivos quando damos voz a um outro sujeito. o capital. cujo objetivo e’ o de se acumular. e de quem somos suporte. e’ bem marxista, claro.mas, pra mim, resolvia (e resolve) bem a parada. abssgold

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