O Quarto Herdeiro

O feijão-com-arroz de minhas aulas é o seguinte: dou perguntas com objetivos específicos sobre um texto ou tema, peço aos alunos para se dividirem em grupos e as discutirem, e vou passando de grupo em grupo para saber como vão indo. Depois fazemos uma discussão geral com as questões trazidas por cada grupo. A aula dessa semana era sobre a experiência urbana moderna, que trazia impessoalidade, especialização, liberdade, individualidade e riqueza. Lá pelo final da aula um aluno no fundo me pergunta o que a questão da especialização e da objetividade diz a respeito de sua futura profissão de funcionário da máquina pública. Eu, que me acho Ph.D. em relacionar teoria e prática, tive que pensar. Estava num plano abstrato, sonhava com os relógios de Simmel concatenando a vida em Berlin. Pedi ao aluno que esclarecesse melhor a pergunta enquanto eu pensava alguma coisa.

Retomei alguns exemplos dados um pouco antes, o do médico que lê imagens o dia todo, e o do revisor de textos de um jornal, que nunca entram em contato com ninguém mas que não podem esquecer que há um médico, ou um jornalista, e em última instância um paciente, e um leitor, que dele dependem. Também assim, o auditor das contas da prefeitura deve manter seu olhar objetivo sem perder de vista que o Estado está lá para prover serviços públicos, e que as contas que ele examina não são um fim em si mesmo; ele não pode ser perder em picuinhas nem aprovar algo formalmente adequado que esconde falcatruas.

Aí saí da pergunta e comecei a contar a história do apartamento do tio Gilberto, e dos inúmeros documentos que o juiz pediu para autorizar a venda do referido bem, e que incluiam o inventário do avô Miguel morto em 1937, o atestado de óbito do bisavô Jacob Schnaider em 1936, e – pasmem – o atestado de mudança de nome de meu pai de 1948, de Henry Pait para Henrique Pait, nome pelo qual foi conhecido a vida toda. Era óbvio que o juiz não pensou em justiça quando encalacrou a venda; era óbvio que não desconfiava de fato que havia maracutaia em nosso pedido de alvará, e sabia que não havia nenhum herdeiro enganado, perdido por aí nos últimos 70 anos, a quem não queríamos dar a quarta parte do apartamento da Melo Alves. Mas o juiz se enamorou por todos aqueles nomes, pelos erros de grafia, pelas mudanças de identidade e ideologia ocorridas ao longo do século XX. Justiça, o que tenho eu a ver com isso? Sou apenas juiz, veja bem.

Há algo mágico em contar uma história pessoal em sala de aula. As conversas paralelas se suspendem. Os personagens ficam grandes, vivos, importantes. Voltei ao assunto, e disse que os documentos extras não diziam nada ao juiz, e que se houvesse maracutaia eles estariam até melhor apresentados e mais coerentes que os que de fato contavam a vida de minha família. E que um mix de objetividade e subjetividade era necessário no exercício de sua função. Disse ainda que quanto mais documentos se pedem, pior fica para quem é idôneo, melhor para quem não é.

E aí houve a polêmica. “Do jeito que o brasileiro é malandro, se não tiver regra vira zona.” Contra-argumentei com meu curso como prova material. Eu deixo vocês trabalharem em casa, não dou prova em aula, cobro apenas o que eu acho necessário para a realização do trabalho, e depois confio que vocês fizeram as entrevistas, leram os textos, produziram análises. Se eu pego alguém que burlou as regras, reprovo e pronto, mas não posso prejudicar o grupo todo por um que vai plagiar, e que vai ser desonesto de qualquer modo.

Afinal, eu sou responsável pelo desenvolvimento intelectual de vocês.

Já estávamos no final da aula das 9 da noite de quinta-feira, e veio também do fundo: “Mas como você pode valorizar tanto a responsabilidade individual de cada aluno e ao mesmo tempo atribuir a você a responsabilidade sobre o curso?”

Sim, como é que eu poderia? Como é que eu poderia me sentir responsável por algo que ia além de minha iniciativa pessoal? Como é que eu não apenas dava as aulas, indicava os textos e seja o que deus quiser? Como é que eu não fazia como o juiz e pedia uns documentos a mais, assim, só por pedir, sabendo que o quarto herdeiro só existia em seu cérebro de ostra, e que bandidos de verdade roubavam casas em processos fraudulendos ali mesmo, na sua própria jurisdição?

Disse que não era meu o mérito por trabalhos brilhantes de alunos que até desdenhariam de minhas orientações, nem minha a culpa por trabalhos ruins feitos por alunos que, digamos, não priorizaram o curso nesse semestre; mas que pela qualidade média dos trabalhos finais eu era responsável. Que uma explicação boa esclarece, uma orientação boa dá caminhos, um texto bem escolhido informa. Que era minha, sim, a responsabilidade. E que ela não excluia a a responsabilidade deles; eram antes complementares.

Eu sei, parece básico. Eu sei, alguém deveria ter dito a eles que a responsabilidade é algo que diz respeito a todos. Eu sei, não é matéria do meu curso. Mas está aí nos jornais, muita gente não sabe. E essas pessoas, em algum lugar eles estudaram, e a ninguém foi dito: é sua responsabilidade.

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