É só um curso

O programa dizia que o curso seria sobre a questão da diferença em nossa sociedade, sobre como as construimos e as vemos, como as aceitamos ou rejeitamos. Dizia também que os alunos teriam que investigar em seu próprio cotidiano quem eram e como viviam os diferentes. No site, eu perguntava o que esperavam do curso, e a adesão a minha questão foi brutal: todos tinham o que dizer. Um aluno disse que o curso o faria refletir sobre como lidava com a diferença e o faria a partir disso uma pessoa melhor.

Na aula, era o momento de botar os pingos nos is. Disse que tinha ficado contente com as expectativas, respondi dúvidas, esclareci interpretações, enfim, botei todos no mesmo barco. Emendei: tem gente que espera que o curso o faça uma pessoa melhor; baixem a bola, isso aqui é só um curso, só vamos aprender algumas coisas, fazer o trabalho e pronto. É um curso.

Às vezes eu mesma esqueço isso; é só um curso, uma porção de textos lidos e escritos, notas e faltas, aprovado e reprovado, até à vista.

Fico olhando para minha tela, de onde podem surgir trabalhos e questões pelo site, esperando alguma coisa a mais. Os alunos deixam tudo para a última hora, sempre, então no limite do prazo que eu mesma dei a eles começo a ficar apreensiva: e se ninguém fizer os trabalhos? E se eu não tiver nada para ler? E se eles não tiverem feito os benditos exercícios que desenho com tanto cuidado: “Passem um dia observando em seu cotidiano tudo o que diga respeito de um modo ou outro com a globalização.”

Os trabalhos vêm em jorros, claro, nas últimas horas do prazo. Com temas diferentes e repetidos, com português cuidado ou de internet, com vozes pessoais ou chavões, um atrás do outro, pedindo comentários mesmo que depois reclamem, engraçados, tocantes, observadores, debochados. Sempre vêm, até agora. Sempre têm vindo. Leio, dou notas, eles reclamam como num curso, e nesse ato de dar notas e fazer reclamações estamos reafirmando, é apenas um curso, fiz isso pois é meu trabalho, fiz o tal passeio pois preciso do diploma. Eu não poderia dizer que quero que eles vejam o mundo e me contem o que viram, afinal adoro ouvir histórias, poderia?

É só um curso. Tenho que ensinar uns textos e dar notas para quem aprendeu. Terminamos o curso, uns aliviados que era só um curso, outros pessoas melhores, e a maioria um pouco na dúvida, era só um curso? Era, era só um curso.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s