A metamorfose

“A professora é hippie.” Ela não perguntou nem acusou. Apenas constatou, olhando para minha cara, como se tivesse me visto do avesso. Mimada, rica e preguiçosa, eu não conseguia detestá-la como merecia. “A professora é hippie”, ela disse, e uma coisa que eu nem era acabei sendo.

“Hoje só faltou o incenso, hein, professora?”, me perguntou um aluno mais simpático uns anos depois, mas aí eu já tinha me conformado com a coisa.

Entre uma frase e outra fui testando minhas hippices, aula no jardim, bolinha de tenis, exercício do olhar e coisa e tal. Num curso de psicologia para administradores públicos, propus à classe estudar a psicologia humana a partir de quem realmente entendia, e não de uns cientistas metidos que apenas repetiam os primeiros em textos ruins. Homero, Shakespeare, Schnitzer, os autores de Genesis, Gogol, esses caras é que entendiam dos dramas humanos. Não iríamos estudar os textos, as técnicas narrativas, mas sim os personagens retratados. Ao final do curso um aluno disse que o que mais o impressionou eram as semelhanças, os mesmos sonhos, os mesmos medos, o mesmo ser humano. Sim, a solidão da Senhorita Else, a liderança desastrosa de Ulisses, o amadurecimento de Telêmaco, a rivalidade entre irmãos, o oportunismo do falso inspetor, tudo isso era de ontem e de hoje, li nos trabalhos dos alunos.

E a metamorfose? Pedi aos alunos que fizessem um teatrinho na aula, em grupos, jogo rápido, escolher uma cena e encená-la para a classe. Um grupo – futuros administradores públicos, lembrem-se – fez a primeiríssima cena, quando o monstruoso inseto tenta erger-se como gente mas consegue apenas balançar as patinhas nervosamente no ar. O aluno deitado na mesa do professor, e víamos as patas, não as pernas, ríamos todos e, talvez, angustiávamo-nos também.

Quase um século antes Kafka lia a metamorfose para os amigos em algum restaurante de Praga, fazendo-os rir. Depois o texto ficou sério com todos os pretenciosos comentários dos críticos, que às vezes detonam o texto e outras vezes valorizam a crítica. Mas naquela sala de aula no interior de São Paulo minha hippice trouxe a metamorfose de volta, nos fazendo rir de nossas angústias modernas.

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