O aluno sucinto

A imagem que tenho de mim mesma é a de uma professora que não distingue negros e brancos; alunos vindos de meios privilegiados e humildes, homossexuais e heterossexuais; esquerdistas e liberais. Uma vez uma aluna revelou que tinha síndrome de Tourette, uma condição que a levava a movimentar as mãos repetidamente e, de vez em quando, a sair da classe sem razão. Fiquei surpresa: achei que aquilo era tudo parte de sua individualidade, não imaginava que era uma síndrome, uma diferença, uma problema.

Mas a imagem que a gente tem de si mesma não corresponde completamente à realidade, e há um grupo que sempre trato de modo inóspito: os homens que escrevem sucintamente. Uma vez pedi que um deles reelaborasse o resumo que tinha feito dos textos dos colegas. Ele disse que não havia mais nada a ser dito. Eu pedi que me desse então os artigos, e ele respondeu que já tinha jogado no lixo. A classe riu, ele se constrangeu e depois, pelo site, pediu uma retratação. Eu nunca teria jogado no lixo um texto: sempre poderia haver um novo olhar, uma nova interpretação. Para ele, compreendo agora, as idéias foram extraídas, publicadas, e pronto: lixo.

Um outro aluno eu repeti por ter, numa substitutiva, condensado a tal ponto as idéias de Arendt que me pareceu decoreba. No ano seguinte estava lá ele, acabrunhado, no fundo da classe. Já parcialmente ciente do meu erro, eu interrompia o que dizia para cumprimentá-lo, quando ele chegava no meio da aula, e perguntava se estava tudo bem. Num exercício pedi aos alunos que, em duplas, identificassem pontos fortes e fracos para que pudessem se ajudar mutuamente a enfrentrar os desafios do curso. Sugeri ao colega do Guilherme que o motivasse, pois fazer o mesmo curso duas vezes não era mole. Deu certo, o colega me contou, e ambos acabaram trabalhando juntos. Enfim, cheguei perto do pedido de desculpas, por uma falha a respeito da qual eu não tinha clareza.

Os trabalhos finais chegaram, todos muito bons. O de Guilherme era excelente. Objetivo, sem ornamentos, gramática clara e precisa. Falava dos catadores de lixo, de exclusão, de trabalho duro. Mas sem pieguices nem grandiloquências. Simplesmente contava ao leitor como é catar lixo, separar lixo e viver do lixo na cidade de Araraquara.

O curso tratava da diferença. E eu passei a respeitar essa classe de gente que eu antes queria consertar: os homens que escrevem sucintamente.

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