A feira do Pacaembu

Colocava algumas definições na lousa naquela aula excepcionalmente tranquila para uma turma de economia que me recordava muito das bagunças que fiz ali ao lado, no Pequeno Príncipe, uns poucos vinte anos antes. O PIB é a soma do valor de todas as coisas que um país produz num ano. O volume é estimado pelo IBGE, toda estatística é uma aproximação, mas o valor do IBGE é o melhor chute possível, podem confiar.

A classe começou um debate, desta vez não para saber onde iam passar o fim-de-semana. Debate desses de aluno, um arriscando uma opinião, outro rebatendo, até que sobrou uma pergunta pra mim: “Mas professora, a quantidade a gente entendeu, mas o preço quem define também é o IBGE?”

“Isso, quem define o preço?”

Bem… é… o preço quem define é o mercado, né?

Talvez eu tenha dito isso, talvez outra coisa, não lembro. Era a primeira pergunta que me faziam, pergunta mesmo, quando o aluno olha para você e quer saber alguma coisa, e deposita em você a esperança de que o esclareça.

Fui para a casa com a pergunta na cabeça, pergunta grande, de botar pra funcionar tantas mentes brilhantes, tantos Ricardos. Mas os alunos não tinham perguntado como o Ricardo achava que os preços eram determinados: a pergunta era para mim.

Os alunos, eu sabia, viviam bem, e viver bem em São Paulo significa ter um pequeno séquito ajudando você e seus pais a tocar o dia-a-dia. Em Los Angeles, há muitos anos, me espantei que naquelas casas luxuosas quem cuida da cozinha é a milionária. Meus alunos, mesmo nem tão milionários assim, talvez nunca tivessem checado se tinham troco antes de entrar num ônibus. E talvez, pensei, já com más intenções, nunca tivessem ido na feira…

A feira… As frutas e verduras, as barracas e gritos, os pacotes e o dinheiro. O mercado, o núcleo das cidades, o herdeiro das feiras medievais de Braudel, o lugar onde minha mãe buscava legumes e peixes frescos para a minha infância, a feira do Pacaembu. Na próxima aula, disse, dividam-se em dois grupos e cada grupo, com apenas 35 reais, deverá trazer a maior quantidade de produtos da feira possível. Os integrantes do grupo que ganhar levam 1 ponto inteiro na média.

Chegaram cheios de expectativa, caras de criança. Me dei por satisfeita aí mesmo, pois eu não conseguia fazer absolutamente nada com aquela classe. Uma colega me contou que um dia saiu da sala em protesto e a bagunça era tamanha que ninguém notou. Também temi que eles acabassem usando mais dinheiro que o determinado, mas que nada. Aceitaram a regra, a primeira regra aceita no curso. E foram à feira.

Os meninos caíram nas graças de uma feirante, que lhes deu todas as dicas possíveis. Eu os vi comendo melancia e batendo papo com o dono de uma outra barraca – a casca gigantesca eles iam usar como invólucro para toda uma gama de coisas, me explicaram. Não só os feirantes, até eu tinha virado gente. Frutas caras, com nomes difíceis? Ah, não, o dinheiro não vai dar. As meninas, além das frutas, queriam cascas de coco e flores para enfeitar o arranjo. O coco tudo bem, é resto, mas e as flores? Sorriram, mas sorriram tanto, que acabaram ganhando.

Levaram tudo nos braços, até a sala, onde montaram, cortaram, ajeitaram, e chamaram o diretor para ver, mas não sei se ele alcançou a idéia, envolvido em sérios projetos de emprego da criatividade nos negócios. Eu ria. Fiquei na dúvida sobre o ponto, meninos ou meninas, mas eles exigiram o ponto para a classe toda, que eu dei, não tinha gostado das frutas? As secretárias também gostaram, ficaram com as flores, talvez esse seja meu ambiente intelectual.

Não falei nada, nem de Braudel, nem de Appadurai, nem de Ricardo: a vida das mercadorias eles trouxeram da nossa feira do Pacaembu.

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3 respostas em “A feira do Pacaembu

  1. Olá! Sem querer encontrei uma menção em seu Blog sobre a escola Pequeno Príncipe no Pacaembú! Trouxe boas recordações, pois estudei lá até o fim do ginásio…Uma pena a escola não existir mais.Abraços!

  2. Pingback: “Barraca da Helô” na feira do Pacaembu | Crônicas da Sala de Aula

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