A classe vazia

Campus lindo, ensolarado, frio, morto. Devido à greve, meus alunos não vieram, como haviam me alertado pelo site do curso. Vim por princípio, mas por princípio cada vez mais difícil de definir, vontade de ficar em casa curtindo a sinusite e embaralhando programas de TV na cabeça.

A greve das três categorias – professores, alunos e funcionários – foi decretada na semana passada, mas sinto que estamos em greve desde 5 de março, quando o calendário escolar indica: início das aulas. Aula para mim é espaço de troca de vivências e saberes, descobertas coletivas, conflitos e consensos, produção de textos de que nos orgulhamos.

E até agora, nessa classe – uma longa greve. Nenhum momento onde pude ver nos rostos dos alunos “a ficha cair”. Quando isso acontece o professor atento pode enxergar a ficha, escutar o som, sentir o orelhão tremer e finalmente ganhar forças para a próxima turma.

Tenho alunos dedicados, e muitos deles devem estar aproveitando a interrupção das aulas para terminar seus trabalhos finais. E eu… bem, eu dei minhas aulas, coloquei os textos no xerox, propus exercícios. Mas não houve aprendizado ou, antes, houve uma declarada resistência a ele, e me pergunto se com ela colaborei.

Releio mentalmente o psicanalista inglês Wilfred Bion, que estudou as vontades tácitas dos grupos, e penso que a classe vazia, com as carteiras alinhadas para ninguém e o projetor recém-instalado, mudo no teto, possa ser nosso melhor retrato. Sinto que fundamentalmente eles não querem aprender comigo e não há muito o que eu possa fazer a respeito. Aos poucos perco eu a vontade de falar.

Fazer as vontades da classe é sempre o melhor jeito de perdê-la, aprendi com o tempo. “Indique menos textos, mude a data dos exercícios, dê aulas expositivas, traga autores nacionais.” Quando os alunos se queixam de alguma coisa, é geralmente algo muito mais profundo em você que eles não toleram, e é bom que eles continuem pensando que é o texto em inglês que incomoda, e não você com sua estúpida cobrança por pensamentos próprios.

Explicações? Vastas. Currículos rígidos, escolhas precoces, teorias desconectadas da realidade e diplomas de utilidade duvidosa que a um só tempo asseguram aos alunos a inutilidade desse estudo e impedem que eles busquem novos caminhos intelectuais. Mas uma classe vazia é uma classe vazia, e não há sociologia que dê conta.

Só que um sociólogo não resiste à tentação generalizadora, e imagino que em outras classes, em outros campi, também esse desejo de não aprender – se fosse desejo de desaprender não seria mal, eu mesma fiz vários cursos no doutorado para desaprender a USP – esse desejo de não aprender se instaurou.

Essa vontade de não escutar, de não questionar, de enquadrar apressadamente tudo o que possa surgir de novo, esvaziando-o de sentido, só na minha aula? Talvez muitos nem sofram com isso, com a perturbadora ausência de comunicação entre pessoas vivas, juntas.

Greve, greve, greve. Uma greve profunda, das entranhas da universidade, de seu saber e saber mais, com pretextos anti-governamentais e momentos poéticos como a escalada à Torre do Relógio, que me encheu de orgulho. E que devia ser parte do ritual de entrada nas nossas universidades: vê-las de cima, enfincadas em suas cidades, os carros e caminhões passando em volta!

(escrito em maio de 2007; abaixo, professor da USP na Torre do Relógio)

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